terça-feira, fevereiro 02, 2021

A CAÇA - PROMOÇÕES E OS NOVOS CAÇADORES

Uma das actividades do Homem nos últimos milénios, para sua alimentação e não só, foi a caça. Não estou a falar da caça nos últimos 5 séculos, em que se abatem seres de forma irracional e apenas para satisfazer interesses económicos. Estou a falar da caça para sobreviver num meio mais ou menos hostil. A ida para o campo, a procura, a identificação, a captura, a partilha da presa com o clã. Parece que não tem nada a ver, mas...este Fevereiro é o mês em que o meu cartão Continente vai chegar aos 4 mil euros poupados com o cartão ao longo dos anos. Era um cartão Modelo, e este valor significará também que ao longo dos anos (vai fazer 15 anos), pelas minhas mãos, ficaram no Continente entre 10 mil euros e 15 mil euros. Curiosamente, e passando pelas minhas mãos o cartão Continente dos meus pais, que aderiram ao cartão na mesma época que eu, verifiquei que vão também chegar aos 4 mil euros poupados com o cartão. Mas pelo que vi de compras que iam fazendo, não me admirava nada que tivessem gasto cerca de 3 vezes mais do que eu para atingir a mesma poupança em cartão, ou seja, gastaram cerca de 35 a 45 mil euros. Quando vou a um Continente às compras para usar os cupões de desconto, é como se andasse numa floresta à procura das presas, que capturo e depois meto num saco para levar para o clã. É algo ancestral que trazemos nos genes. A caça. Da habilidade na caça, ou da falta dela, se variava entre a sobrevivência e a morte. E esta caça, segundo os estudos, era muitas vezes por algumas folhas, raízes ou frutos, muito mais do que por animais. Veio depois a agricultura e da caça das plantas passou-se para a sementeira e colheita. Mas ficou algo nos genes, isso é certo. Nos genes ou no espaço entre os genes, onde também caberá muita coisa da informação que passa de pais para filhos. Se calhar é por isso, porque se caçava em zonas diferentes em busca de alimentos diferentes, que nos dias de hoje eu não caço só no Continente, que tem tido de facto as melhores promoções, mas apenas por causa dos talões. As reduções muitas vezes são equivalentes aos outros supermercados, a diferença é juntar um cupão de 25% de desconto a produtos com mais de 10% de desconto no preço base. E juntam-se ainda as colecções de selos, na última saquei dois pyrex com tampa dos grandes. Onde gosto menos de caçar é no LIDL, que tem de facto alguns bons produtos alimentares e um ou outro electrodoméstico ou ferramenta em destaque. Mas os preços raramente são chamativos. Há depois o Pingo Doce, com alguns bons produtos e com boas promoções também, mas é um péssimo terreno de caça, desorganização na exposição e muitos preços mal indicados. E alguns produtos sem qualidade, mas realmente baratos. O Aldi é mais raro, mas para coisas específicas é imbatível. Qualidade e preocupações com a saúde dos consumidores. O Jumbo/Auchan é organizado e tem coisas interessantes, mas de facto cada vez vejo menos presas à disposição. Ainda assim tem coisas específicas que quando em promoção valem a pena. E termino com o Intermarché, que no final do ano passado passou a ser o meu terreno favorito para ir à caça. De facto, o Intermarché foi mais longe, sob o pretexto de comemorar o primeiro aniversário da sua marca própria "Por Si" resolveu dar 40% de desconto nos produtos dessa marca. Todos os variadíssimos produtos poderiam ser comprados, mas para ter os 40% de desconto em cartão teriam os clientes que levar no carrinho um mínimo de 25 produtos com essa marca, e no máximo 100. Nada difícil de atingir: bolachas, arroz carolino, conservas variadas, comida para animais, farinha, açúcar, produtos bio frescos, queijos nacionais, sementes, papel higiénico, detergentes, etc, etc. E esse desconto de 40% era diário, ou seja, poderíamos comprar num dia e ter essa promoção e voltar lá no dia seguinte e ter o mesmo desconto. Foi assim durante uma semana, com muita publicidade até na TV. Estes 40% foi uma boa promoção, mas uns dias antes, durante 3 dias, tiveram todos os azeites e óleos com 50% de desconto em cartão, que também aproveitei, claro. Não fui ao Intermarché todos os dias, porque também não comemos assim tanto aqui em casa, mas fui dois dias. Num dia um avio maior, de 74.49 euros, acumulando 30.02 euros, depois um menor, mas que desse para gastar este saldo, neste caso um avio de 46.01 euros, acumulando em cartão 18.15 euros. Em cartão tinha um saldo inicial de 11.42 euros referente à compra anterior, a tal promoção dos azeites. Em dois dias gastei então um total de 79.06 euros em compras variadíssimas e temos a despensa preparada para a guerra contra o vírus, e os recolheres obrigatórios e etc. E fiquei com um saldo em cartão de 18.15, como já referi. Um total de 98 artigos (58 + 40). Foi certamente a promoção imbatível do ano. E este ano já fizeram 30% em cartão a quem comprasse pelo menos 25 produtos da marca Por Si, não se compara aos 40% do ano passado, mas é muito bom. Melhor do que os 25% do cartão Continente (não tenho nada contra o grupo SONAE - quer dizer, tenho mas não é para aqui chamado). Para mais quando na marca Por Si abundam os produtos nacionais e aparece sempre a menção à empresa produtora. E sendo já produtos da marca, são à partida mais em conta, e assim consigo as melhores caçadas de sempre. Longo o texto? Um dia faço um tutorial no Youtube, mas para já vou preferindo assim, por escrito. Até porque isto não é um guia de como caçar as melhores promoções. No meu clã sou conhecido por pautar a escolha da minha alimentação com os produtos oferecidos em promoção. Depois é dar-lhes aquele toque culinário, et voilá, temos sopas, guisados e assados para todos os gostos. Com muita comida BIO, e quase tudo de produção nacional. Só mimos, eu sei...

CINEMA EM CASA

Não haja dúvidas que estamos bem preparados para estar em casa e ter acesso a bens culturais que antes nos obrigavam a sair de casa e a gastar verbas suplementares. Se já nascemos privilegiados em termos de conforto e cuidados de saúde, em termos de acesso à cultura as coisas têm vindo a fazer de nós uns principezinhos. E nestes dias vimos dois filmes que me agradaram de sobremaneira, cada um à sua maneira. Deixo-vos as apresentações dos filmes Non-fiction (francês, 2018, do renomado Olivier Assayas, com grandes, enormes actores entre os quais Guillaume Canet e Juliette Binoche)

e Aloha (EUA, 2015, do argumentista e realizador Cameron Crowe, com grandes desempenhos de Emma Stone e Bradley Cooper)

Só de ver estes resumos publicitários já se lavam as vistas. Em grande a RTP, que tão bons filmes nos permite ver.

domingo, janeiro 24, 2021

ESTA ÉPOCA NÃO CONSEGUI COMER BOLO-REI

 E não foi por falta de me oferecerem bolos parecidos para provar. A verdade é que o bolo-rei está em vias de extinção. Curiosamente, aqui em Coimbra, deparei com um artigo de uma pasteleira, que veio dizer aquilo que eu pensava, num artigo colocado no jornal (link para o diário As Beiras). Deixo aqui uma parte desse texto da Olga Cavaleiro, com uma vénia: "Houve tempo em que ser pasteleiro era ter a alma nas mãos e olhar com ternura os ingredientes fazendo destes sabor sempre querido. Hoje, é saber ler o manual de instruções de uma receita feita em laboratório. Houve tempo em que ser pasteleiro era ganhar a perfeição pela repetição convicta de uma receita. Hoje, é usar os pós mágicos que fazem que os bolos saiam sempre iguais numa falsa perfeição.

Não faço este ato de crítica de forma gratuita, apenas porque sim. Faço-o com a consciência de que é possível resgatar a nossa pastelaria a este embaraço. Faço-o porque acredito que mais do que nos queixarmos de que “antigamente é que era bom” podemos começar por escolher. "

E para mais, deixo ainda aqui o convite a amigos da gastronomia e da cultura portuguesa para navegarem no site da Olga Cavaleiro, Ao Sabor de Portugal (clicar aqui).


MUDAR DE VIDA - O YOUTUBE DO MEU PAI - JOSÉ MÁRIO BRANCO - ACORDAR O PENSAMENTO


Volta ao Malfadado o Mudar de Vida. Acho que depois da partida do José Mário Branco não fiz aqui a merecida homenagem póstuma. Na verdade não considero essenciais as coisas póstumas...

O meu pai tem uma lista de reproduções do youtube com muita música clássica, mas também outras coisas musicais que foi pescando aqui e ali. Estava ele a mostrar-me esta sua colecção quando apareceu esta versão curta desta música fundamental, que deu origem ao documentário emocionante que vi na íntegra há uns anos atrás, sobre a vida do José Mário Branco. Mais do que um compositor, o José Mário Branco está no mesmo patamar intelectual e até filosófico do José Saramago. Grande observador da sociedade, grande inventor de muitas poesias e textos.

Pesquisando na net descobri a letra integral desta obra musical (link aqui), que fala do mudar de vida de forma sentida e analisando a sociedade. Retirado de um arquivo elaborado e mantido pela FCSH da Universidade Nova de Lisboa (link aqui para os mais curiosos e desconhecedores). Nesta versão reduzida a letra foi cortada, pois claro, e para apreciar o texto cantado o utilizado do Youtube colocou legendas, mas em versão tradução automática, com coisas que não fazem sentido. Por isso não liguem as legendas do youtube e vejam, leiam, sigam aqui a letra (coloquei entre parêntesis partes do texto que fazem sentido, e eliminei pelo meio muito do texto que não aparece nesta versão curta):


Hesitei

Se havia de escrever esta canção

Porque a vida não se pode resumir numa canção

Mudar de vida…

Mudar de vida é uma questão

qu’inda não está resolvida

Aliás, para quê mudar de vida?

Estará assim tão mal a minha vida?

Mas o que é a minha vida

senão a própria vida

que está contida

em toda a força perdida

em toda a vida perdida

consumida

passada, repassada, ultrapassada

como se não fosse vida?

A minha vida – não há

Uma vida mesmo vida

só pode ser um espaço

que está dentro de um abraço

que se dá ou não se dá

Vida verdadeiramente

é sempre a vida da gente

que penosamente

insistentemente

inexplicavelmente

vai fazendo andar a roda

que fabrica a vida toda



Uma vida separada

se parada

se vida seca e mais nada

se for vida distraída

alienada

sozinha, irrelevante, e auto-ignorada

já não é vida vivida

Uma vida separada

não é vida nem é nada

São corpos minerais

nem plantas nem animais

Pois quem vive distraído

à conta do seu umbigo

quem não é capaz de dar a vida

pela vida de um amigo

está sozinho com os outros

e está sozinho consigo

… pelo menos, é assim que eu vejo as coisas…

Então,

mudar de vida p’ra quê?

Em tudo o que foi vivido

procuramos um sentido:

o que essa vida nos diz

uma matriz

um pendor

um sonho, um amor, um desamor, uma paixão uma razão

– ou uma grande razão!

Por baixo de cada vida

há essa roda que gira

com os ratinhos lá dentro

a fazer a roda andar

As coisas materiais

as coisas essenciais

o pão, a casa, os sinais

que são a vida directa

a existência concreta

As coisas que estão à mão

que nos parecem normais

- a paz, o pão, a saúuude, a habitação -

Então:

Mudar de vida? 


— (CORO) Mudar de vida!




Mudar de vida

Mudar de vida, acordar 

Acordar o pensamento



Vida verdadeiramente

é sempre a vida da gente

que penosamente

insistentemente

inexplicavelmente

vai fazendo andar a roda

que fabrica a vida toda

Muitos de nós nem dão conta…

Achamos isso normal…



Mas afinal:

E a hora de trabalho que há em cada coisinha? E o cansaço da mãe co’as panelas na cozinha? Como se chama a Judite que me fez esta camisa? Onde está o Eduardo que fez este projector? E onde pára o Vladimir que ergueu aquela parede?

Estão não sei onde

Do outro lado daquilo a que nós chamamos vida

A vida deles

para nós não é bem vida ...

é – digamos assim – mercadoria produzida São umas “coisas”…

Umas coisas que vivem… sei lá onde, sei lá como… 

Viverão?

Essa gente

- tirando alguma excepção -

não está confortavelmente

aqui sentada à minha frente

a ouvir a minha canção

Vai vendo telenovelas

Olhos perdidos no espaço

A digerir o cansaço

A descansar do vazio

São corpos esgotados

destinados

a serem recarregados

que amanhã é outro dia

em que vão trocar por pão, ou tudo, ou nada

mais e mais mercadoria

fabricada, montada, embalada e transportada

que p’ra eles não vale nada.



Estes de que falo são 66% da gente do meu país. Há mais 24% que sobrevivem nas pregas do pesadelo.

Sobram 10... 

Dos dez por cento, são oito

os que duma ou doutra forma

levam cheios de arrogância

as migalhas do biscoito

que são o seu resgate da esperança

- que estão nas tintas pra tudo, a começar por si próprios

Ficam os tais dois por cento

os que a gente nunca vê

mas que nos vêem a todos

Quem fabrica um parafuso

uns sapatos, uma estrada

qualquer coisa fabricada

recebe um xis pela hora

pelo gesto, pela vida emprestada

que não é vida nem nada

Amortizado o capital constante

pagas as despesas todas

incluindo o esperto que teve a ideia

fica então a mais-valia

que é a demasia

entre o valor da mercadoria

e os gastos do patrão

o esperto que teve a ideia

o empreendedor

que pôs os outros a viver p’ra ele

Porquê?

Porque os valores são outros

- Quais são os teus valores, Zé Luís?

- Os meus valores?

- Sim, quais são os teus valores?

- Bem… o Amor? a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade? a Amizade? …

 a Justiça, ora aí está, a justiça .

– ah, e também a Honestidade

- E tu, aí, quais são os teus valores?

- Os meus valores?

- Sim, quais são os teus valores?

- Os meus valores estão na Bolsa de Valores

Ao qu’isto chegou!

(A minha vida p’ra isto?

é o que tendes p’ra me dar?

é o que tendes para me obrigar? para me impor?

Mudar de vida !)

(...) (...)


(Antero! meu Mestre!

Convoco-te ao fazer desta

com esse teu sinal vermelho

mesmo no meio da testa

A Unidade que procuraste

a Utopia dos loucos…

Disseste um dia

a chorar de alegria

de esperança precoce e intranquila:

“Vós, poetas, que sois os loucos porque andais na frente!”

Utopias

temo-las todos os dias

realizamos umas tantas

a cada dia que passa )




Nos anos 20 do século do mesmo nome, para tentar deter o flagelo social da sífilis, que dizimava pobres e exércitos, o biólogo alemão Ehrlich fechou-se no laboratório.

Tentou uma experiência e falhou.

Tentou duas, falhou.

Três, quatro, cinco, seis – falhou sempre.

Até que conseguiu um tratamento – chamou-se “tratamento Ehrlich 606”.

Mas ainda não conseguia curar a doença sem matar o doente. Então Ehrlich continuou, mais uma, e outra, e outra. A cura, finalmente conseguida, chamou-se “Ehrlich 914”.

Quantas vezes já tentámos nós?

— novecentas e catorze? ainda não!

— seiscentas e seis? ainda não!

mas talvez… quem sabe

dez? vinte?

qual é o preço da esperança?




“Acordai!

Acordai! homens que dormis

a embalar a dor

dos silêncios vis

Vinde no clamor

das almas viris


arrancar a flor

que dorme na raiz!”

“Estamos de punhos fechados

mas temos as mãos nos bolsos”

Então:

Mudar de vida?


(Antero! meu Mestre!

Convoco-te ao fazer desta
com esse teu sinal vermelho
mesmo no meio da testa. 
Disseste um dia: )

“Não disputeis, curvado o corpo todo, as migalhas da mesa do banquete:

Erguei-vos! e tomai lugar à mesa…”

Mudar de vida?


MUDAR DE VIDA!!!

Levar o sonho de Antero

às mulheres do Vale do Ave

às da Zara, às da Maconde, às da Rohde

aos homens da Pereira da Costa

aos jovens da Cova da Moura, da Arrentela,

da Apelação e da Alta de Lisboa, meus irmãos.

aos homens da Autoeuropa e da Azambuja

ao milhão de desprezados,

ao lixo do capital

aos seres humanos dispensáveis,

descartáveis, recicláveis

a esses olhares perdidos

dos nossos telejornais.

Levar o sonho de Antero

aos humilhados e ofendidos.

“Erguei-vos! e tomai lugar à mesa…”

Libertar a mais-valia que está na mercadoria —

Mostrar a vida escondida por baixo do sofrimento

Acordar a força

Acordar a força motriz

A energia matriz de onde nasce o movimento

A raiz

Mudar de vida!


Mudar de vida? 


Mudar de vida

Mudar de vida, dar

Dar o pontapé na morte


Mudar de vida

Mudar de vida, romper

Romper o cordão da sorte



Mudar de vida

Mudar de vida, dar

Dar as mãos para o caminho


Mudar de vida

Mudar de vida, mudar 

Que isto não muda sozinho


Mudar de vida

Mudar de vida, pôr

Pôr em marcha o movimento


Mudar de vida

Mudar de vida, acordar

Acordar o pensamento


CARTA BRANCA A MÁRIO LAGINHA

Carta Branca a Mario Laginha: Piano Mário Laginha Saxofone Julian Arguelles Percussão Helge Norbakken Bateria Alexandre Frazão Contrabaixo Bernardo Moreira Guitarra e voz Tcheka. 

Emitido em 2017 pela RTP 2, a nossa televisão, a nossa cultura, o nosso entretenimento e a prova de que o investimento público faz a diferença, num mar de televisões privadas onde se promovem os valores mais pobres da humanidade, e a reboque o populismo.
Fica no início a ligação para mais de uma hora de música de primeira água, vale a pena ver e ouvir sem pressas, desligados do mundo para voltar a seguir ao nosso caminho, com mais energia e um sorriso no coração. Se calhar já aqui estava no Malfadado, mas não é demais um lembrete.

MÚSICA EM CRIOULO - MÁRIO LAGINHA E TCHEKA

Querido diário, há músicas que nos fazem os dias vibrarem por momentos. Aqui ficam estas pérolas, com a Maria João e Mário Laginha. E Bana e Tcheka.


E agora esta melodia tão tranquila, de um CD que eu tenho na minha colecção de CDs da Maria João
E para terminar um regresso ao Tcheka com o Mário Laginha, num registo mais antigo. Quem me falou deste concerto há uns anos, e que decorreu em França, foi o Eduardo, do Clube de Fãs da Maria João, pois ele esteve lá. Nunca eu tinha ouvido falar deste cabo-verdiano. Uns anos mais tarde apanhei na TV um espectáculo gravado, que vou partilhar também aqui, pois junta um colectivo que criou um momento único, onde aparece também esta música, que já teve honras de Malfadado em 2016 em duas versões, uma delas esta mesmo, em França.

IVAR E A MORTE

Dia 22 o meu amigo Ivar Corceiro partilhou um conto autobiográfico no seu Facebook, que agora faço meu. De forma abusiva, pois não lhe pedi autorização... sabendo que ele nem sequer vai saber, pois escreve muito bem e não é leitor do Malfadado. Nestes dias enlutados, em que nada posso dizer dos avôs que não conheci mas que ainda me viram em vida, este texto cai bem no meu diário. Eu já só tenho memória das avós, uma era a do açúcar amarelo comido às escondidas quando a íamos visitar, mal sabia eu que ela enchia sempre o pote plástico e o deixava ali à mão de semear. A outra é do lado materno, o lado que geneticamente ficou mais forte na minha maneira de ser, e foi a avó que me ensinou a cozinhar e que quando me via magrinho (depois de tratado com medicamentos para a obesidade infantil) comentava que me tinham queimado por dentro. Não andaria longe da verdade...
Fica então o conto do IVAR CORCEIRO:
"Foi o meu avô quem me apresentou a Morte. Muito antes de morrer, diga-se de passagem. Estávamos sentados num banco de jardim. À nossa frente só um lago com patos e cisnes a quem eu dava pedaços de pão duro que ele guardava religiosamente em sacos de plástico para os nossos pequenos passeios de férias ou de fim de semana. A água do lago era amarela esverdeada e mais parecia saída dum esgoto qualquer, mas tanto os patos como os cisnes pareciam felizes ali. Eu ia atirando os pedaços de pão para locais diferentes para que todas as aves conseguissem comer pelo menos uma vez, ele ia olhando para o relógio de bolso que mais parecia ser um prolongamento do seu corpo do que um objecto externo. Às vezes alguns pardais perdiam o medo e aproximavam-se também para tentar a sorte. As árvores segredavam entre elas coisas da vida num silêncio que os meus quatro ou cinco anos de idade ainda não me permitiam perceber. O meu avô alternava a leitura metódica das horas com as cócegas que fazia ao planeta com a ponta da sua bengala de madeira. Quando o pão acabou os patos e os cisnes desinteressaram-se e voltaram para a sua vida despreocupada no lago sujo. Os pardais aproveitaram para devorar as últimas e mais pequenas migalhas que tinham ficado espalhadas pelo chão. Sentei-me ao lado do meu avô e vi os desenhos que ele tinha feito no chão de terra do jardim. Eram círculos perfeitos sem aparente motivo ou mensagem. A mão esquerda dele tremia sem parar e a direita é que fazia esses desenhos e ia tirando e devolvendo o relógio ao bolso. Foi num desses momentos que interrompi o pesado silêncio do mundo. Avô! O teu relógio é antigo mas ainda trabalha bem. Não sei bem o que é que ele entendeu da minha frase que, na verdade, não era mais do que uma inocente observação duma criança. Talvez tenha feito uma análise ao seu próprio corpo. Talvez não. Quando eu morrer é para ti! - disse. Com a resposta do meu avô a Morte sentou-se ao nosso lado, no mesmo banco. Eu fiquei no meio e ela à minha esquerda. Silenciosa. Até esse momento, na minha mente de criança o meu avô era velho mas ia ser sempre velho. Sem nunca morrer. Depois desse momento ia morrer num dia qualquer. Os meus olhos transformaram-se em cascatas tristes e alguns dos pequenos pardais esvoaçaram assustados. Lembro-me que a luz do Sol dançava na superfície suja da água. Fingia-se distraída do quase fim do mundo que acabara de acontecer e que só foi interrompido pela astúcia do pai do meu pai. Mas ainda falta muito! E olha que vale a pena andar aqui. E então a Morte levantou-se e foi passear por aí, os meus olhos secaram e os pardais voltaram às migalhas. Nesse dia não a tornei a ver. O meu avô mentiu-me. Não faltava muito. Quem me acabou por dizer a verdade foi a velocidade vertiginosa da Vida, que esta semana me levou o meu Pai. O meu Pai nunca me levava ao parque mas levava-me ao café depois do jantar, onde me permitia sempre beber um Sumol de laranja enquanto ele fumava as amarguras duma vida em cigarros intermináveis e lia vários jornais da primeira à última palavra. Percebi com esse tempo que nunca pára que a vida nunca lhe foi fácil e que tudo o que conseguiu ter e viver foi sempre às custas dele mesmo. Melhor ou pior, fez também todos os esforços para que a minha vida fosse mais fácil do que a dele. E foi. E é. Esta semana a Morte voltou a visitar-me e levou-o. A pandemia e a proibição dos voos entre o Reino Unido não me deixaram despedir-me, mas lembrei-me desta frase que o meu avô me disse em criança: “E olha que vale a pena andar aqui”. E valeu. E vale. Para além das recordações com que ficamos é isso que um pai nos deixa sempre. Valer a pena andar aqui. Fiquem bem. Todos vocês. Façam com que tudo valha a pena."

sábado, janeiro 23, 2021

O NOSSO SABU

Quando eu era pequenino e viviamos em Setúbal, tínhamos um cãozito que eu não me lembro nada dele. A não ser pelas fotos que fui vendo de tempos a tempos nos nossos álbuns de família. Aqui em Coimbra aproveitei e reproduzi digitalmente um par de fotografias do Sabu, que agora deixo aqui no blogue. Depois deste cãozito que viveu em plena liberdade, e que adoptou outro dono que lhe dava ovos estrelados e de certeza lhe fazia mais companhia, fazendo-nos depois umas visitas esporádicas, segundo me contaram, não tivemos outro cão. Só já nos anos 90 tive outro cão, aliás outros cães: a Farrusca e a Bonita, que se juntaram a mim e ao rebanho das ovelhas do Monte Barata. Dois cães oferecidos pelo Zé Preto, famoso pastor do Rosmaninhal (Idanha-a-Nova) que antes dos voluntários do Monte Barata recebeu ele mesmo um prémio Quercus. Só dele e merecido! E depois destes dois cães que referi, houve também o Sussulo e o Bucas, a Ruiva que apareceu e depois foi levada, e um cão que não recordo o nome, do casal malogrado e de má memória final (ainda que de boa memória nos tempos iniciais e bucólicos) que matava ovelhas só por prazer de perseguir e morder. E dos cães mais recentes já este blogue tem suficientes referências, acho que um dia destes faço um especial Nadí, a cadelinha que está registada em meu nome, e que me adora.
CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS : Rogélio Pedrosa 1961/62, Outão (Sécil), foto a preto e branco, que ainda não se usavam as fotos a cores.

DIA DE REFLEXÕES

Acabada a campanha eleitoral hoje é o tal dia em que as pessoas devem fazer o balanço sobre o votar ou não votar, escolher A ou B, ou fazer uns rabiscos engraçados no boletim de voto. Estas eleições presidenciais não vão ter história, o nosso bom presidente Marcelo vai ser reeleito à 1ª volta, coisa fácil de conseguir; até as múmias paralíticas o conseguem fazer. Ainda assim é bom poder escolher e este ano há muito por onde escolher. Não me admira que muitos queiram premiar o estilo interventivo, simpático e eficaz de Marcelo Rebelo de Sousa. E também não me admira que alguns, certamente muitos benfiquistas, prefiram votar no homem que se diz contra o sistema e capaz de fazer diferente. Mas se vissem, como eu vi em Vagos, um carro da sua campanha a deitar papéis pela janela, a ficarem na estrada molhada, perceberiam logo que à sua volta junta gente que não respeitando o ambiente, desrespeita tudo e todos. Porque é isso a sua campanha, semear a divisão, dizer que a culpa é dos outros, sejam eles ciganos ou pretos ou mulheres. Mas uma votação expressiva num populista acabará por ser bom para o sistema, para ver se os partidos tradicionais percebem que têm que mudar o seu modus operandi, sob pena de serem ultrapassados por gente desta desrespeitadora. Pela minha parte, que sempre gosto de agitar bem alto as bandeiras vermelhas, a escolha vai ser fácil, ainda que a Marisa Matias seja mais competente, tenha mais capacidade e seja mais de esquerda. Vamos ter um presidente da república num momento em que há nações republicanas sujeitas à monarquia, num momento em que há nações que saíram da Europa comum, mas que a maioria dos seus habitantes queriam ficar, num momento em que há países europeus onde a democracia deu lugar a sistemas autocráticos e promotores de perseguições políticas. Mas é também um momento em que no mundo já vimos cair o Trump e pode ser que os brasileiros percebam que elegeram a pessoa errada para estar à frente de um país que é quase meio continente, e que ainda tem povos indígenas. Amanhã votem bem, que eu tã-bem.

quarta-feira, janeiro 20, 2021

DIAS POUCO DIÁRIOS

Desde os primeiros dias do ano que o Malfadado ficou aqui parado. Assentei arraiais em Coimbra e a família levou o meu tempo e dedicação. O meu pai foi ganhando uma nova energia ao mesmo tempo que a minha mãe não conseguia reagir ao quadro clínico de tumor intestinal com úlcera. Da anemia grave que prejudicou a oxigenação e forçou o coração a bater mais e mais, os rins e fígado a trabalhar no limite, a falta de apetite e dificuldade em ingerir alimentos, o aumento diário da dificuldade em colocar-se de pé, depois sentada, até ao estado de falência dos órgãos foram uns dias agitados. O minguar das forças e a dificuldade em respirar quando se colocava de pé não tinha explicação no diagnóstico oncológico, mesmo considerando algumas manchas nos pulmões e fígado, e as médicas da minha mãe aconselharam uma ida às urgências. Na verdade, estando deitada, a minha mãe ficava estável e sempre muito lúcida e nada sofredora. Conhecedor da realidade dos serviços de urgência dos HUC, depois da decisão da minha irmã em chamar o INEM, ainda disse à minha mãe para se queixar muito de dores e dificuldades, mas ela ainda teve força para reagir e dizer que não ia mentir. E o resultado foi o que eu esperava, pulseira amarela, deu entrada às 22 horas e ficou na maca sem nenhuma intervenção toda a noite, só lhe fizeram análises às 10 da manhã. As análises acusaram níveis de potássio elevados demais no sangue, corrigiram esse nível e deram-lhe alta à noite. Às 23 horas estava a regressar a casa, com alucinações e perfeitamente esgotada de cansaço. No dia seguinte foi um dia para descansar e dormir, dormir. Depois vieram a casa fazer colheita para análises, e o resultado foi claro: falência dos órgãos vitais. Foi grande a coragem da minha mãe, ao saber os resultados e pedir para não voltar ao Hospital. Continuou lúcida e pediu a presença do padre franciscano no dia seguinte, já instalada na cama articulada que montámos para facilitar as mobilizações e posicionamentos. Na manhã seguinte, acompanhada em permanência por familiares e num dia que nasceu cheio de luz, a minha mãe foi pedindo para mudar de posição até que o coração parou, a respiração ficou pausada e adormeceu no sono mais fundo, levando memórias e saberes, levando a presença protectora constante na vida de algumas outras pessoas. Dia 10 de Janeiro de 2021 fechou-se um ciclo. Depois foi o que se espera destes momentos trágicos. Os netos da Suiça vieram juntar-se ao pai (o meu irmão tinha vindo para as pequenas férias de final de ano) quando finalmente perceberam que uma das suas avós ía morrer. Eu fui contra esta viagem apressada, por mim estas presenças devem ser em vida, dando notícias e acompanhando. Mas eles quiseram vir e fizeram-lhes a vontade, chegaram já o velório estava montado na sala. Ainda assim foi importante a sua presença atrasada, para currículo de vida. Duvido é que tenham aprendido alguma coisa, distraídos em quase permanência com as infernais máquinas de jogos e distracções passivas. Foram dias diários para eles, para mim foram pouco diários. Estive presente mas refugiando-me como sempre das cerimónias religiosas. E depois das cerimónias continuei de enfermeiro do meu pai, acompanhando e ajudando, ouvindo e cuidando, até que ele foi passar uns dias a Canas de Senhorim. Voltei a casa e trouxe a Nadi, para a refugiar das últimas noites de frio intenso e arejar a sua casota de cimento frio e mantas. E voltei aos abraços dos amigos, ainda que à distância e sem bracinhos, neste distanciamento social que arrasta um congelamento social que também é doentio. Por estes dias pouco diários arranjei também outras coisas interessantes para partilhar aqui no Malfadado, e que aqui cairão quando voltarem os diários dias. Por agora estou a recuperar.

domingo, janeiro 03, 2021

EM PASSEIO COM OS AMIGOS

Nada como um domingo de manhã para sair de casa em passeio. E esta manhã saí em vários passeios ao mesmo tempo, mas mantendo os pés quentinhos debaixo dos lençóis. Andei a ver as novidades dos amigos, muitas mensagens de Ano Novo e fotos a ilustrar. O típico do Facebook. Mas gosto principalmente de textos da malta que esteve na rua, entre passeios e trabalhos de campo na agricultura. Alguns dos quais partilho aqui, sem referir os autores: 

"- Olá, bom dia. É para visitar o Castelo?
Apercebi-me que o interlocutor, que surgiu do nada logo após ter estacionado o meu carro na praça central da aldeia, junto à velha mas imponente fortaleza, era nem mais nem menos do que o funcionário do posto de turismo e também responsável pela abertura, fecho e manutenção do interior do Castelo.
- Quando quiser é só dizer. Eu abro-lhe a porta.
Informando-o de qual era o meu objetivo, entregou-me diligentemente cartografia do local e orientou no sentido do início do percurso pedestre de Amieira do Tejo.
Como qualquer bom percurso numa manhã fria de nevoeiro, o início tem de resvalar para um local onde sirvam café, neste caso a associação recreativa local. Após saborear a desejada bica, de forma mais apressada e decidida do que o vizinho de balcão cujo copo de três era sorvido lentamente, iniciei o PR 1 - trilho de jans, circular, com cerca de 11 km, em direção ao rio Tejo. Primeiro ao longo de uma paisagem ondulada, remendada com pastagens luxuriantes, carvalhais e olivais, em direção ao banco de nevoeiro que se vislumbrava lá em baixo, no vale. 


Curiosamente, com o avançar do percurso e da manhã, a neblina foi-se dissipando, qual mar vermelho aberto por Moisés, e deixava observar paisagens magníficas e feéricas. Percurso atapetado de musgo e herbáceas brilhantes de orvalho e uma constante presença invisível dos dedicados javalis que insistiam em interromper o referido tapete verde. Prados com gado ronceiro e curioso, mantido por pastores modernos, cavalgando veículos 4x4 mas não deixando de, diligentemente, oferecer o seu pequeno-almoço a um estranho que, incompreensivelmente trocou o quente dos lençóis por um esforço matinal com temperaturas próximas do zero.

Até que, no início da abrupta descida para o rio, protegida por uma confortável e salvadora escadaria em madeira, surge, entre o nevoeiro esfarrapado, o maravilhoso e profundo vale do Tejo, com a barragem do Fratel unindo as suas margens, e a linha de comboio, rio abaixo e rio acima, de braço dado com o leito do rio mais extenso da península ibérica.
A chegada à margem do Tejo caudaloso, alimentado pela descarga de superfície da barragem, permitiu conhecer pela primeira vez o extenso muro de sirga que parecia concorrer com a linha da Beira Baixa, na outra margem. Não me recordo de alguma vez, nas longínquas infância e adolescência, ter ouvido falar destas estruturas de pedra, nalgumas zonas autênticas muralhas, que serviram em tempos idos para dar a força necessária aos barqueiros, através de cabos de sirga, para transporem as zonas mais caudalosas que o vento ou os remos não permitiam contrariar. E eram os animais ou a força humana, esticando esses cabos, que permitiam que as embarcações chegassem ao bom porto de Vila Velha de Ródão ou a terras de Castela.
E o percurso continuou, sempre acompanhado do rumorejar das águas revoltas, dos saltos dos riachos em pequenas cascatas que se fundiam com o Tejo, do piar da diversificada e irreconhecível passarada e do voar atabalhoada das garças.
A passagem de uma locomotiva de manutenção pela linha da Beira Baixa, cujo maquinista acenou de forma simpática, quebrou momentaneamente a paz daquela tranquila paisagem rural.
Chegada à margem oposta de Barca da Amieira, local de transposição do curso de água com recurso a uma barca moderna e motorizada, verificou-se estar esta inoperacional devido aos mais de 430 m3/s golfados pela barragem. Barca da Amieira foi em tempos o local de passagem do corpo da rainha santa Isabel, falecida em Estremoz e sepultada na famosa igreja de Coimbra.
Na reta final do percurso, no remontar ao povoado de Amieira do Tejo, o trilho passava inesperadamente por uma zona de acesso interdito, por ser privada. No entanto os caminhantes, como afirmava a placa informativa, eram bem-vindos e o seu acesso era feito por uma porta especialmente erguida para eles.
- Claro que sim. É sempre em frente, pelo caminho de terra batida - informou sorridente um trabalhador da quinta depois de lhe ter perguntado, timidamente, se podia passar.
Para trás ficava a deslumbrante paisagem pastoral do vale do Tejo.
Antes de entrar no troço alcatroado, surgiram dois pontos saltitantes que desciam encosta abaixo, por entre a vegetação esparsa e a transbordar de clorofila. Com a aproximação apercebi-me serem duas raposas, com suas causas farfalhudas, que, alegremente, à medida que avançavam, se desafiavam e mordiscavam.
Com o castelo ao fundo, entre as casas brancas e rasteiras da aldeia, ocupado em tempos pelo condestável D. Nuno, a estrada, murada, serpenteava pelo meio dos campos. Os condutores dos automóveis que, pontualmente, nela passavam, cumprimentavam. No percurso de regresso, os mesmos condutores insistiam na saudação cordial e calorosa.
Cerca de 4 horas depois, de chegada novamente ao largo do castelo, este já se encontrava fechado e o amável funcionário camarário, por ser a sua hora de almoço, já tinha interrompido o corte de vegetação no seu interior, sempre de olho no balcão do posto de turismo, também da sua responsabilidade.
Percurso terminado mas não concluído: em abril será retomado e repetido, recorrendo então ao comboio até à estação de Barca da Amieira- Envendos e posterior passagem do concelho de Mação para o de Nisa utilizando o denominado transbordador. E vai haver certamente uma paragem, pela hora do almoço, na associação recreativa onde, com mais calma, poderemos certamente saborear uma bifana e um copo de três, quiçá acompanhado pelo tal habitante de Amieira do Tejo.
Estão convidados."

E outro agora:

"Neste primeiro dia do ano o sol bem cedo começou a ensaiar a sua dança, a natureza agradece: a margarida do monte, malmequer de liberdade, levantou a corola agradecida; a aranha-tigre lobada aproveita para renovar a teia; a cobra de ferradura absorve cada raio de sol para aquecer o corpo; o gato Napoleão sempre bem instalado procura o melhor canto para captar os raios solares; o caracol caracolinho mete os corninhos ao sol; 

no pé de salsa os pigmentos da clorofila vão captando a luz solar para a realização da fotossíntese - este pé de salsa é uma força da natureza, uma lição de vida, nasceu no meio do cimento e todos os dias mostra o seu encanto e a sua vontade de viver.
Votos de um ano iluminado para todos"

E este texto do Torga, partilhado por outro amigo no último dia do ano:

"Sísifo


Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga TORGA, M., Diário XIII."

E termino com esta foto de outro grande amigo, que partilhou e escreveu assim:
"De uma forma didáctica, pretendo continuar a utilizar a fotografia de natureza e as minhas imagens como meio de divulgação, valorização e preservação do nosso património natural.
“Porque só protege quem gosta e só gosta quem conhece”.
O reino dos fungos é um mundo maravilhoso e mágico constituído por milhares de organismos essenciais à vida no planeta, são os grandes recicladores da natureza, especialistas na decomposição de organismos animais e vegetais, contribuindo para que o solo esteja bem nutrido e hidratado."

Este amigo é a prova viva de que a sociedade de consumo prefere que a malta seja reformada tarde, pois se forem reformados ainda com saúde podem dedicar-se a projectos educativos e que apelam à cidadania ativa. E acabo assim, com esta minha reflexão, este momento matinal de navegação na net. E de registo no diário. Está na hora de levantar e alimentar quem tem menos saúde.


E UMA MÚSICA DESTE FABULOSO DUO

 OVERDRIVER DUO - um casal de brasileiros que faz, muito bem, reviver músicas muito boas de vários estilos da música popular.

sábado, janeiro 02, 2021

AMBIENTE NA ORDEM DO DIA

 Querido diário, só para registar que nas redes sociais a defesa do ambiente continua na ordem do dia. Pelo menos é a conclusão que tiro da consulta rápida ao Facebook. Se há pessoas como o Jorge Paiva, que conheci há décadas a defender o ambiente, e continua a influenciar a sociedade, à sua maneira e em grande forma (link para crónica do Público), aparecem também outras pessoas que clamam por mais mudanças na forma de vida de todos e de cada um, de forma a respeitar todos os seres vivos do planeta. Gosto de ver estes activismos. Porque são os meus activismos também. Li também a entrevista à Patti Smith, publicada na revista do Expresso, onde ela realça a defesa do ambiente e refere a necessidade de cada um ser menos egoísta, nos relacionamentos sociais, mas também nas escolhas de consumo, para nos permitirmos ter um planeta habitável por uns aninhos mais. Para nós e para os que aí vêm. De repente, entre família e vizinhos vêm aí mais 3 bebés este ano.

CONTESTATÁRIO E PARTICIPATIVO

 Aqui em Coimbra apareceu na caixa de correio um postal tamanho grande, iniciativa dos CTT. Vendo com atenção, o postal trazia uma folhinha destacável que informava ser este postal uma ideia dos CTT para as pessoas poderem enviar para quem quisessem, sem custos. De um lado a parte para as pessoas escreverem, do outro uma pintura sem graça nenhuma com motivos e cores natalícias. Tipo papel de embrulho. Mas em letras pequeninas estava também escrito que esta iniciativa era uma alternativa proposta pelos CTT à ANACOM para a compensação da falta de qualidade dos serviços prestados pelos CTT. E, pelos vistos, a ANACOM aceitou. Vai daí, agarrei no postal e enviei-o ao primeiro-ministro, António Costa, pedindo para ver se aumenta a qualidade na ANACOM, de modo a não  termos a sensação que são muito permeáveis à corrupção. Um postal gratuito uma vez sem exemplo? Que raio de compensação é esta? Não poderiam os CTT dar algum do seu lucro ao sector das artes, nesta fase crítica que atravessamos? E como estava em onda participativa, aproveitei e enviei a minha candidatura para o concurso Vaqueiro, para ver se me calha uma das 5 Bimbys que eles vão oferecer. Enquanto não me sai uma Bimby, ou alguém me oferece uma, sempre vou tentando a sorte no totoloto, porque entre apostas sempre se ajuda a Santa Casa e outros apostadores, e pode ser que calhe um prémio grande que dê para comprar algo mais do que uma Bimby.

sexta-feira, janeiro 01, 2021

ENTRADA

A entrada em 2021 foi feita com o pé direito metido numa pantufa. Mas a verdade é que ainda os fogos de artifício troavam pelos ares e eu já estava na rua, pé direito nas minhas botas Chiruca, fui à garagem buscar uns colchões para o meu irmão acampar na sala da casa dos meus pais. Devido ao adiantado da hora eu já estava praticamente a dormir em pé, mas lá comi as excelentes 12 passas de uva bio que tinha comprado em excelente promoção do Intermarché. Esperando que 2021 seja um ano também excelente. E como resolvi fazer um registo tipo diário, vou fazer poucas referências a terceiros, que felizmente me acompanham nestes nossos dias de vida. Foi uma passagem de ano em família, cumprindo muito minimamente as restrições impostas, também pela muito frágil situação de saúde da minha mãe. E acompanhando também os problemas do meu pai, que nasceu em 33 e anda debilitado por coisas que eu cá sei. A pitada de felicidade foi a presença do meu irmão luso-helvético, que conseguiu vir até cá nestes dias festivos, e se preocupou em organizar uma jantarada com 5 convivas e com foto partilhada no Whatsapp da família chegada.

OLÁ 2021

 Querido Diário

Neste 2021 que agora começa, vou fazer do Malfadado o meu diário. Para que fique registado, e sujeito a algum tipo de análise futura, como foi a vida em Portugal de uma pessoa anormal.

No ano em que o Malfadado vai cumprir 15 anos (é já este mês, não estando previstos festejos especiais), e com um total de mais de 1400 registos, esta é a forma de evoluir de um blogue pessoal. É uma nova experiência, para fazer uma coisa que nunca fiz, nem nos tempos de criança ou adolescente, ainda que tenha tido umas agendas de bolso onde cheguei a  começar uns rascunhos. Sempre gostei de observar a passagem do tempo, a verdade é essa.

Não terei registos diários obrigatórios, mas poderei ter mais do que uma partilha por dia. Como se pode ver já a seguir.

quinta-feira, dezembro 31, 2020

ADEUS 2020

É o fechar de um ano. O Malfadado recebeu textos, fotos e videos de coisas que me marcaram, numa quantidade que reflete a minha disponibilidade, que reflete por sua vez o tempo que usei para fazer outras coisas. Não perdendo tempo no Facebook houve mais tempo para partilhar alguns episódios e reflexões pessoais. Daí que o Malfadado tenha crescido com pouco mais de 100 coisas que passaram, e que algumas delas merecerão ser recordadas.

 

segunda-feira, dezembro 28, 2020

EVOLUÇÃO

 No ano marcado pela pandemia aconteceram-me muitas coisas. Mas as mais significativas estão ligadas, curiosamente, à saúde. Ou à falta dela. Este foi o ano em que morreu a minha tia, tal como anotei aqui para a posteridade e para referência futura (link Malfadado). Foi vítima de um sistema de saúde e apoio aos idosos que não ouve as pessoas e que se rege por preconceitos escandalosamente ligados à indústria farmacêutica. Tudo começou porque uma médica lhe receitou um complexo vitamínico, um dia vou contar a história. Não tenham medo, médicos ou instituições que lhe deram cabo da saúde, porque não os vou referir especificamente. Ainda sobre esta minha tia, e muito curiosamente, tenho que dizer que a sua intervenção foi determinante na minha saúde, aliás tal como referi aqui no Malfadado na época (link para texto antigo). Foi também o ano em que a minha saúde passou por maus bocados, mas vamos devagar, e, se a memória não me falhar hei-de contar aqui cronologicamente. Mas nada de grave, e apenas derivado de maus hábitos. E é quase anedótico, claro! Com a ajuda do Konrad lá deu para me endireitar e perceber que tenho que desacelerar.

Estamos na época em que as pessoas são atafulhadas de medicamentos e a evolução certamente trará novas visões para a saúde. um dia vamos olhar para esta forma lucrativa de olhar para a medicina como hoje olhamos para as práticas de tortura de há alguns anos atrás (e nalguns locais ainda hoje...) aplicadas a pessoas com problemas mentais ou "comportamentos desviantes". Eu já vou lá à frente, e vejo já muitas pessoas que pensam e agem como eu. A tendência é sempre aumentar, à medida que a medicina mercenária dos medicamentos vai falhando nos seus propósitos. Mas por estes dias cabe-me acompanhar o meu pai, drogado e sem qualidade de vida, e a minha mãe, sem qualidade de vida e a aguardar decisões médicas para um problema grave que passou ao lado de todas as análises rotineiras. Deixou de ir ao iridólogo dela... o mesmo que há muitos anos atrás teve um papel importante na saúde da família, até para mim.

domingo, dezembro 27, 2020

CONTAGEM DECRESCENTE PARA A DESTRUIÇÃO

 O Greenpeace, tudo aquilo que faz há tantos anos, continua a motivar muita gente para não baixar os braços. Este ano que agora está a terminar teve tanta intervenção cívica a propósito da crise ambiental, que é de facto uma coisa imprescindível para ser referido num balanço do ano. E como tal aqui vos deixo 3 videozinhos, aliás 3 episódios de um pequeno documentário, em que a conhecida actriz brasileira de cinema, Alice Braga (pois, a tal sobrinha da Sónia Braga) apresenta muitos elementos que certamente dão que pensar. E vontade de fazer qualquer coisa... para além de escolher as melhores legendas.







sábado, dezembro 26, 2020

BALANÇO DO ANO 2020

 O balanço foi negativo. As poucas coisas positivas não chegaram para se sobreporem às coisas negativas. Ainda assim levo para o ano seguinte muitas coisas positivas, principalmente com a presença de alguns amigos nas coisas que me fizeram levantar todos os dias. Talvez um dia me renda às novas tecnologias e às videochamadas para visitar mais amiúde alguns amigos que recordo muitas vezes e dos quais vou tendo saudades.

Se escrever mais alguma coisa neste malfadado blogue até dia 31, certamente será também em jeito de balanço de 2020, analisando na especialidade.


Bobito, pelo meu amigo Gabriel Soares


sexta-feira, dezembro 25, 2020

NATAL É TODOS OS DIAS

 


Desconheço autor de imagem e comentário, roubei-a da net. 
Infelizmente não são imagens raras de encontrar.

quinta-feira, dezembro 24, 2020

VIAGENS E REPORTAGENS - ANTÓNIO LUIS CAMPOS

 


Hoje o destaque vai para o site do meu amigo António Luis Campos. Activista e um companheiro de viagens que eu escolheria sempre, pois é um sabedor e um animador. No site dele (link aqui para uns minutos de exploração), para além deste video que foi premiado, existem outros videos, imagens e informação.

quarta-feira, dezembro 23, 2020

CAJADO SOLIDÁRIO

O malfadado não pode deixar de referir aqui a solidariedade para com o alegado agressor do presidente da Câmara Municipal de Abrantes, agressor que foi depois detido. Jorge Ferreira Dias não tem o meu apoio pela agressão, mas pelo facto de ser vítima de um estado de direito em que os cidadãos são desrespeitados pelo sistema judicial, processos que se arrastam anos, juízes com preconceitos ou muito parciais na defesa de interesses de amigos ou dos poderosos. Jorge Ferreira Dias e a sua mulher já passaram as passas do Algarve, e ele deve ter chegado a um momento de desespero para ter deixado as suas ovelhas, na sua pacata mas sofrida vida, e ter ido de cajado enfrentar os burocratas da Câmara, que neste vai vem processual já lhe ficou com terrenos que foram seus e que perdeu para os bancos, por decisão judicial. A questão entre autarquia e proprietário já se arrasta desde o início deste século. A grande originalidade do Jorge Ferreira Dias foi extravasar a sua raiva através de um meio ameaçador, é certo, mas que não se destinaria a matar ninguém: o cajado de pastor. Ainda que se saiba que já muita gente morreu à paulada ao longo dos tempos. E coelhos então, chegavam a morrer dois coelhos de uma cajadada. Agora é mais de espingarda, e é mais fino matar dezenas de veados e javalis com uma caçada.

terça-feira, dezembro 22, 2020

O BLOGUE DA MÃE

 Hoje comemora-se o aniversário da minha mãe. 84 anos depois de nascer em Lisboa, com raízes profundas em Vila Verde (freg. Tourais - conc. Seia). A vida da minha mãe dava um blogue, como todas as vidas de mulheres que são filhas, esposas, mães, avós e bisavós. As memórias que a minha mãe tem do passado, e que gosta de contar, já têm muitos suportes fotográficos. Talvez um dia eu possa fazer um blogue foto-cronológico, e tenho pena que a minha memória não guarde todas as histórias de família que ela sabe contar, para enquadrar todas as fotos da melhor forma. Nestes dias difíceis em que a saúde da minha mãe está gravemente ameaçada, fica a partilha desta rosa em foto, roubada desse jardim imenso que é a internet, e que lhe ofereço em imagem, pois outras pessoas já lhe encheram a casa de plantas, em vaso ou cortadas, fazendo deste seu dia um dia mais alegre. Se alguém, algum dia pesquisar na net pelo seu nome, pode ser que apareça a referência a este texto. Maria Amélia Pinto Figueiredo, que acrescentou logo dois apelidos quando se casou, Gomes Pedrosa, ficando com um nome mais pomposo.


Hoje passámos um belo dia em Coimbra, com a presença de familiares e amigos. Ninguém se lembrou do bolo de velas, foi imperdoável. Eu lembrei-me mas não me organizei o suficiente para o confeccionar... é o costume.


segunda-feira, dezembro 21, 2020

BORDALO II EM ÁGUEDA

Apanhei a divulgação de mais uma obra do nosso incrível Bordalo II, e da sua equipa extraordinária, desta vez com luzes alimentadas a energia solar. Com luzes já era para mim uma estreia, mas com essa energia vinda de um painel solar ainda é mais significativo. É em Águeda, que assim beneficia de mais um trabalho impressionante exposto nas suas ruas. Já lá tinha esta obra:

E também esta:



E fica o desafio para descobrirem mais coisas do Bordalo II em Águeda, bem como de outros artistas, em registos muito diferentes.

Um dia destes vou visitar o Punti e passo em Águeda para ver esta novidade ao vivo. As obras do Bordalo II ao vivo ganham outra dimensão. Que o diga o Punti (link para foto de 2017, fez agora 3 anos).


domingo, dezembro 20, 2020

PEQUENA ANIMAÇÃO COM REFERÊNCIAS ARTÍSTICAS

 E com referências sexuais explícitas, logo no nome em inglês The D in David. Fica aqui o filmezinho no youtube, na sua versão original. Ficam sempre bem os desenhos animados no Natal.


sábado, dezembro 19, 2020

LEGO E MAIS LEGO

 

Aqui fica então esta pequena animação que descobri hoje na net ao navegar no youtube, na melhor versão dobrada que encontrei. Na descrição do video aparece também o link para a versão original, falada em inglês. O filmezinho mostra uma história de superação familiar, que depois se transforma naquilo que é hoje: o brinquedo mais vendido do mundo. São produzidas mais de mil pecinhas por segundo, e são vendidos mais de 1500 conjuntos por minuto a nível global. São números que me parecem algo exagerados, mas foi o que descobri em vários artigos. Eu sou fã e estou a juntar muitas peças para ver se faço uma pequena legolândia, por isso, se algum leitor tiver umas pecinhas perdidas e que estejam atiradas para um canto é só dizer-me. Se for criada, esta espécie de legolândia terá que ser baptizada como Legoais de Baixo, para depois ser gerida em conjunto com o Museu do Brincar, um dos melhores museus para adultos e crianças, e que existe aqui em Vagos.
Para ser o melhor brinquedo do mundo só falta descobrir um material que na sua produção incorpore menos substâncias químicas. Há quem lembre que o Lego é feito de plástico e que esse mesmo plástico no ambiente não se degrada, mas a verdade é que deve ser difícil encontrar quem deite Lego no lixo, ou mesmo o abandone por aí, uma vez que as peças produzidas desde há mais de 50 anos ainda se mantêm em excelente estado de conservação e são reutilizáveis em todos os tipos de construções que se queiram inventar nos dias de hoje.

sexta-feira, dezembro 18, 2020

ACTIVISMO NO NORTE - CONTRA AS NEGOCIATAS DO COSTUME

 Desta vez é na cidade do Porto, e a malta do norte já não é o que era. Então fazem uma petição para defender uma zona verde da cidade, e impedir o abate de mais de 500 árvores que são da espécie que é a árvore de Portugal, e numa semana não juntaram mais de 1800 assinaturas? Há que lhes dar uma ajudinha, assinar e divulgar aos amigos. É o que estou a fazer através do Malfadado. Para assinar há que clicar neste link (site da petição pública), e para ajudar a perceber a questão e para divulgar nas plataformas aqui fica este vídeo:



quinta-feira, dezembro 17, 2020

ÚLTIMA SUGESTÃO NATALÍCIA POR DIA - 5 DE 5

 E pronto, eis-nos chegados à última sugestão. Os vales (vouchers) das Pousadas de Portugal. No ano passado por esta altura foram muito interessantes devido à promoção de compra com desconto em Cartão Continente. Mas imagino que este ano, com todas as crises e todas as incertezas, não seja boa política de vendas. Entretanto eles têm uma outra promoção,  e pode interessar a quem possa ter mais algum tempo livre. Quem usar os vales pode prolongar a estada por mais dias com um desconto de 40%. E por estes dias os vales estão com 15% de desconto. Podem consultar aqui neste link (clicar). E fica a dica, os vales que mais compensam são os de duas noites em certas pousadas, mas que também podem ser usados para apenas uma noite em pousadas mais caras, mas já não compensa tanto. Há que fazer as contas!!!

quarta-feira, dezembro 16, 2020

SUGESTÃO NATALÍCIA POR DIA - 4 DE 5

Não podiam faltar os livros e os CDs.

E nos livros destaque para a poesia das imagens, com edição de autor. O Carlos Dias tem duas boas propostas:
1 -Arbórea (edição muito limitada)(link com toda a info)
2 - 7 ideias, 7 portfólios (juntando fotos de vários artistas)(link para Facebook)

CD fresquinhos são os da Maria João, pois claro. Uma colectânea de vários temas em duo com o Mário Laginha e o último trabalho com o projecto OGRE. Open Your Mouth. Pois, e fiquem de boca aberta!

terça-feira, dezembro 15, 2020

SUGESTÃO NATALÍCIA POR DIA - 3 DE 5

Vejam lá se esta doçura não é do céu: https://www.facebook.com/BombonsDeMelMonteDoMato/photos/a.447236998648251/3736502123055039/ E se os contos do Pedro Bravo não são deliciosos: https://www.facebook.com/pedro.bravo.315 Juntando os contos às fotos do nosso Alentejo mais bravo, o Alentejo rural, estão também à venda uns belos postais tamanho XXL, cada um com um conto original: https://www.facebook.com/photo?fbid=10214050570857115&set=a.1019231699853 Tudo links para páginas do Facebook.

segunda-feira, dezembro 14, 2020

SUGESTÃO NATALÍCIA POR DIA - 2 DE 5

A minha sugestão de hoje vai para esta iniciativa que junta as artes à participação cívica nas causas que unem as pessoas e muitas vezes dividem a sociedade. Duas artistas da ilustração começaram esta iniciativa este ano e propõem a escolha de trabalhos seus, que são impressos em alta qualidade, e a verba resultante vai para associações. UMA CAUSA POR DIA, assim se designa a iniciativa (link), que fiquei a conhecer ao ver uma entrevista na TV. Nós escolhemos duas das mais bonitas ilustrações e zás, tudo muito fácil e bem organizado, até enviam recibo e tudo o mais. Uma dessas que nós escolhemos já esgotou a edição em A3, agora ainda há em postal! Fica aqui a dica nº 2. Amanhã vêm aí as coisas doces com mel, para comer literalmente e para beber pela leitura e pela imagem, em sentido figurado.

domingo, dezembro 13, 2020

CHRISTMAS CARD 2020

Aqui fica registado o envio nesta data do nosso cartãozinho de Boas Festas por email colectivo. Uma vez que o mesmo foi inspirado no magistral trabalho de composição do embrulho da garrafa e dois pacotinhos que desconhecemos o seu conteúdo, inserindo-o numa composição caseira, eis as referências artísticas: auto-retrato há alguns anos atrás, embrulho feito pela Elisabete, dona da Maisie, com uma garrafa da República Checa, quadro pintado pela Tininha e que decora a nossa sala, cartão de boas festas enviado pelos CTT pela APP (Ana Paula Pinto), foto tirada confinado à sala num dia luminoso de Outono. E só com estas referências poderia escrever um romance inspirado naquilo que foi este ano que quase já passou. Mas em vez de um romance deixo aqui a versão em bom português actual do que escrevi no mail colectivo que acabei de enviar: "ASSUNTO: CHRISTMAS CARD Hi people Anexo a este short text ao people amigo o nosso greeting card, esperando que chegue ok à vossa mail box e vos encontre ok e happy. É um file algo heavy, para ter a quality que o people merece. O mesmo card (talvez com some diferences) e as news e highlights deste ano estarão soon available no meu malfadado blog, para quem quiser saber mais. Aqui fica o link: www.malfadado-o-contestatario.blogspot.pt . O blog parece um diary mas não é, quando arranjo disponibilidade coloco vários posts e divido-os por dias, que são mais ou menos related com os diversos assuntos. E por estes dias malfadados espero poder postar alguma coisa awesome."

sábado, dezembro 12, 2020

SUGESTÃO NATALÍCIA POR DIA - 1 DE 5

Começa hoje a publicação de 5 sugestões de coisas bonitas para se oferecerem no Natal. Todas elas experimentadas por mim, claro, para depois poder aqui aconselhar. Algumas delas serão repetidas, mas sendo anuais há que relembrar a sua existência. Não sendo um desses influenciadores que recebem pagamentos das marcas, nem pretendendo ser, apenas prestar aos amigos informações que podem ser importantes na hora de escolher. E a primeira sugestão é esta: oferecer investimento colaborativo. Em inglês crowdfunding. Neste caso são duas sugestões, com links: 1 - GO PARITY (link) - um modelo empresarial de financiamento colaborativo, crowdfunding por empréstimo para coletivamente termos uma comunidade de investidores que emprestam dinheiro aos projetos. Como investidor, é possível emprestar dinheiro para os promotores, para que os seus projetos sejam financiados, e pode conseguir um retorno fixo do investimento feito durante a duração do empréstimo. Como promotor do projeto é possível utilizar a GoParity para angariar dinheiro para financiar o seu projeto sustentável dentro da sua comunidade e da nossa comunidade de investidores. 2 - COOPÉRNICO (link)- uma cooperativa - uma empresa social - que promove o envolvimento dos cidadãos na criação de um novo paradigma social, económico e ambiental. Promove igualmente o financiamento colaborativo para investimento coletivo em projetos de energia renovável e reparte os benefícios entre os investidores, a sociedade e o planeta. E sendo cooperantes podemos escolher a Coopérnico como nossa empresa fornecedora de electricidade. Para quem achar bem este envolver mais pessoas na participação social, a Go Parity tem o Cartão de Natal (ler aqui instruções) e a Coopérnico não tem, mas qualquer um pode oferecer o valor total ou parcial dos 3 títulos de participação na cooperativa (ler aqui sobre como ser cooperante), são títulos de capital social, e depois motivar o beneficiado para aderir.

sexta-feira, dezembro 11, 2020

NEM PARA RECICLAGEM É BOM

Há certas coisas, que devido à conspurcação em excesso, ou devidoa terem na sua constituição certos componentes cujo final de linha só pode ser a incineração ou o aterro, com a consequente poluição do planeta, nem para a reciclagem são bons. Vem esta reflexão a propósito desta caricatura famosa do basco Asier Sanz, que aqui reproduzo, mas também da vitória das forças progressistas frente às forças que usam o medo, a religião e as mentiras para levarem por diante negócios que destroem a nossa casa, a Terra. O mesmo povo que elegeu um deficiente por engano, pode sempre eleger outra pessoa que se apresente como sendo melhor. Mas lá como cá estaremos sempre sujeitos a ser enganados, uma e outra vez. Daí a importância da educação, da informação com qualidade e de uma sociedade inclusiva. Os regimes ditatoriais não andam longe, há que saber bem disso, e a participação informada é fundamental.

quinta-feira, dezembro 10, 2020

SEF PERDE DIRECTORA

Neste meu blogue gosto de realçar os êxitos dos meus amigos, e divulgar coisas positivas. Mas de vez em quando acontecem situações menos boas que também têm eco aqui no Malfadado. Vou então contar a história desde o início. Por isso prepare-se o leitor para um texto muito comprido, do tamanho do resumo das minhas memórias.

Há pessoas que cruzam a nossa vida e a marcam aqui e ali. Conheci a Cristina Gatões andava eu no liceu D. Duarte (Escola Secundária). Ela era da turma de uma outra amiga da altura, uma tal Isabel, que tinha uma grande amiga, acho que se chamava Paula. E eu tinha um grande amigo de escola, o Zé Manel Duarte. Personagens paralelas, porque só aparecem aqui para explicar como conheci a Cristina e porque é que nunca convivi de perto com ela. É que o Zé Duarte e eu achámos que as duas amigas, que andavam sempre juntas, eram as ideais para nós, e vai daí andávamos sempre atrás delas, nas chamadas perseguições, até que um dia chegávamos à conversa com elas. E nestas andanças acabávamos por conhecer outras pessoas, até para perguntar pelas duas amigas. E a Cristina serviu precisamente para isso, por ser da turma da Isabel, alunas do 8º ano, era uma mera informadora.



A verdade é que nem a Isabel nem a Paula nos deram a resposta que queríamos ouvir, e aquela mania passou. Mas era tempo de hormonas e as beldades eram mais do que muitas, nem todas acessíveis. E eis que de repente, não sei dizer quando, e muito menos porquê, quando me cruzava na rua com a Cristina ficava todo corado e o coração acelerava. Pouco ou nada falávamos e eram encontros muito raros e casuais. E como ela apanhava o autocarro para Taveiro, passou a ter o nome de código "Cristina de Taveiro". Ela não imagina nada desta história, porque nunca lhe contei, e nem se deve lembrar de quando e como nos conhecemos.

Entretanto eu começo a namorar com a São Veiga, com 17 anos, quase 18 e fecharam-se as portas para outras paixões. Mas vivendo na mesma região eram inevitáveis os encontros na rua com várias pessoas, e a Cristina de Taveiro era o meu amor platónico e todos os meus amigos a conheciam de vista, e conheciam os seus efeitos em mim. Até a São conhecia bem, a São que não gostava nada dela, apesar de nunca se terem falado. Contou-me a São vinda de um jantar de estudantes, já quase no fim do curso dela, de português-francês, que teve o azar de irem para um restaurante de mesas corridas, em que de um lado da mesa se sentaram os alunos de letras, e do outro lado da mesa os alunos de direito. E por coincidência, mesmo em frente da São, quem haveria de calhar? A própria Cristina de Taveiro, pois claro. Lembro-me como se fosse hoje de ela dizer que a parvinha da Cristina (na expressão enfática da São certamente não foram estes os mimos descritivos) lhe tinha estragado o jantar.

Foram muitos os encontros fugazes com a Cristina ao longo dos anos. Nunca soube o seu apelido, era sempre a Cristina de Taveiro, mesmo descobrindo depois que ela não morava em Taveiro, era um pouco antes. Assim de memória, anos oitenta, lembro-me do dia em que saímos de Coimbra, grupo grande de voluntários na Marcha Contra o Desemprego, ela estava a acenar-me de uma janela da baixa, lembro-me de a encontrar no metro em Lisboa, inícios dos anos noventa, e me comunicar que após ter terminado o curso de direito não iria exercer advocacia de tribunais, porque não lidava bem com o sistema. Antes disso foi o dia da Queima das Fitas em Coimbra, finais dos anos oitenta, numa iniciativa que eu abominava mas que calhou a São ir no carro alegórico a celebrar o seu final de curso, e me ter "obrigado" a ir lá vê-la, e eu fui mas avisei logo que iria antes das bebedeiras, ou seja, logo antes do início do cortejo. E lá andei eu à procura do carro alegórico azul clarinho, estive com ela uns minutos, deu-me o livrinho das caricaturas e vim-me embora. No regresso passo ao lado de um carro vermelho e sou apanhado pela Cristina, que também vai buscar um livrinho das caricaturas e me oferece. E o episódio que é igualmente inesquecível foi num dia do meu aniversário, estava eu de voluntário do GIDC numa Feira do Livro, e o meu amigo Jorge Figueiredo encontra a Cristina de Taveiro na baixa (ele só a conhecia de vista, algum dia estaria comigo num desses encontros fortuitos), e diz-lhe que é o meu aniversário e que poderá encontrar-me no stand X da Feira do Livro. E não é que ela vai lá mesmo para me dar os parabéns? Nessa tarde a São estava também de voluntária do GIDC e quando a Cristina se foi embora depois de um breve minuto ali à minha frente, mas do outro lado da banca dos livros e autocolantes, a minha namorada colocou a mão no meu peito e sentiu como o coração batia selvagem e potente, para além de gozar com a minha pele vermelha na cara. Depois, ao longo de alguns meses, contava a toda a gente e dizia que tinha sido a minha melhor prenda de aniversário desse ano, e agradeci ao Jorge Figueiredo a originalidade. Depois houve o período em que fui para Idanha-a-Nova e os encontros tornaram-se mais raros, mas de alguma forma mantivémos o contacto, não posso dar a certeza mas a sua morada estaria entre as dezenas que recebiam regularmente as Novas de Idanha (um imperiódico em fotocópia que eu e a São produzíamos, uma espécie de blogue da altura), e também as Ovinovas (o imperiódico que contava as aventuras no Monte Barata). Conheci a família dela, marido, filhas. E conheci até o cãozinho, mais recentemente, mas sempre em encontros fugazes.

A verdade é que o meu coração deixou de ter aquela reacção e agora os momentos de encontro já não provocam perigo de rebentar com as costelas do peito. Família e amigos de agora nem imaginam que existiu uma Cristina de Taveiro, que agora também para mim é a Cristina Gatões, perdeu-se no tempo o nome de código.

A Cristina Gatões, nos primeiros anos deste século, foi determinante na ajuda aos processos judiciais que eu tive com o Ministério da Agricultura/IFADAP. Andava eu à procura de um advogado que pudesse ajudar-me, no âmbito do apoio judiciário, mas tinha que escolher alguém, depois de muito más experiências com advogados sorteados e depois de muitos recusarem os meus processos, pela exigência dos mesmos. E não é que ela tem no SEF de Coimbra um inspector casado com uma advogada, me dá o contacto dessa advogada e que ela se ofereceu para analisar a situação? Foi assim que conheci a Drª Alexandra Ventura, que durante muitos anos aguentou os embates violentos do sistema contra mim, sempre disponível e sempre muito competente. E, coincidência das coincidências, quando disse à São qual era o nome da advogada, ela disse que tinha sido a sua advogada do Sindicato dos Professores da Região Centro, há um par de anos atrás, quando a São tinha tido umas questões laborais que já não recordo.

A Cristina Gatões foi nomeada para directora nacional do SEF apenas no início de 2019, e depois disso nunca a encontrei pessoalmente, apenas trocámos um e-mail por essa altura. A verdade é que neste curto espaço de tempo deve ter tentado alterar, trabalhando por dentro e conhecedora dos meandros da instituição, muitas das situações de mau funcionamento. Mas herdou uma estrutura pesada e imagino que com muitas barreiras a uma mulher a comandar uma estrutura pensada por muitos homens. Não defendo que existe uma guerra de sexos declarada, mas a realidade mostra bem que a sociedade ainda não vê com bons olhos as mulheres com sucesso e ao mesmo tempo com poder. São alvos a abater.

Ela deu muito poucas entrevistas, pessoais nem uma. E foi pena. Mas fica aqui o link (clicar) de uma entrevista à Rádio Observador, que foi depois transcrita e ilustrada com fotos (de onde eu tirei a foto que aqui publico) e que apanhei on line no portal NovAfrica.

A morte do ucraniano Ihor Homenyuk às mãos de quem o assassinou, agentes do SEF a trabalharem no aeroporto de Lisboa foi, só por si, um acontecimento muito grave. Mas a minha amiga optou por não se demitir, imagino que quando soube que ela também estava entre as vítimas do enredo mentiroso da morte natural, optou por continuar a tentar melhorar as prestações do SEF nas suas várias frentes. Nessa altura tinha pouco mais de um ano como directora, e mais um par de anos em Lisboa, na direcção do SEF, e imagino com muitos projectos para implementar. Provavelmente não se sentiu responsável por actos de agentes que não contratou, por atitudes que não defendeu nem ordenou e muito menos por uma estrutura que existe desde sempre e que já tinha tido outro tipo de problemas que estavam a ser resolvidos e debatidos internamente e junto da tutela. Se havia alguém que deveria pedir a demissão na sequência do assassinato era o responsável máximo, ou seja, o ministro. Mas aqui entra a política, e a Cristina Gatões foi a escolhida para ser sacrificada, para tentar aplacar as críticas da comunicação social e das redes sociais, salvando assim o ministro, apontado como amigo do primeiro-ministro e seu braço direito.

 

quarta-feira, dezembro 09, 2020

MARIA JOÃO PIRES EM ENTREVISTA AO JORNAL EXPRESSO

 Aqui se reproduz uma pequena parte de uma conversa jornalística da nossa enorme pianista Maria João Pires. Fala do seu percurso, fala da actualidade (de onde retirei o excerto que se segue) e fala sobre música. Foi já há muitos anos que me cruzei mais de perto com a Maria João Pires, na sua Quinta de Belgais, dando uma ajudinha na cozinha, como cozinheiro. Uma altura em que Belgais fervilhava de acontecimentos e de muita gente a orbitar ali em volta. 

A nossa enorme pianista é uma pessoa sábia, coloco-a ao nível do José Saramago, mas tem aquele toque de artista que transforma grandes ideias em projectos fora do tempo. Entrevista da jornalista Luciana Leiderfarb, publicada na revista do Expresso de 4 de Dezembro. Destaco aqui apenas uma parte das perguntas e respostas, mas aconselho a leitura integral, consultando o Expresso on line ou agarrando por aí a revista

"(...)
Luciana - Falou recentemente de como as temporadas de concertos gastam num só evento recursos que poderiam ser utilizados para construir um tecido cultural mais duradouro. O mundo das salas de concerto não é sustentável?

Maria João Pires (MJP) - É um círculo vicioso. Para ser sustentável tem que se desenvolver um lado comercial, e se o peso do lado comercial for demasiado, arrasa-se com o objetivo principal, que seria a possibilidade de as pessoas terem uma vivência artística. A grande questão é se esta pandemia vai ajudar ou se vai agravar a situação. Ajudar seria dar oportunidades aos verdadeiros músicos, e para isso teríamos de separar as coisas. Houve um tempo em que havia boa e má música (e não me refiro só à clássica); era mais fácil distinguir uma manifestação artística e criativa de outra meramente comercial. Agora, as duas passaram a estar perigosamente misturadas. Digo ‘perigosamente’ porque um público sem conhecimentos vai ser influenciado pela falta de distinção. Vai consumir entretenimento — que se reduz a criar situações em que as pessoas estão entretidas, divertidas — pensando estar a consumir arte, e comprará mais bilhetes. Ora, isto é muito diferente da transmissão de uma arte. A arte é algo de muito profundo, que exprime aquilo que nós somos — não é por acaso que mandam para o espaço uma nave espacial com música de Mozart ou dos Beatles.

Luciana - E podem juntar-se, arte e entretenimento?

MJP - Não digo que alguém que entretenha um público não tenha dignidade. Mas separar isso da arte é muito importante. Não podemos sempre misturar tudo. Misturar tudo tira-nos a credibilidade como humanos. Estamos a entrar numa era em que deixamos de ser credíveis. Fazemos o contrário do que gostaríamos de ter. Vivemos numa dualidade ridícula, tão ridícula que até os chefes de Estado deste mundo dizem coisas sem o mínimo de inteligência ou de capacidade de discernimento.




Luciana - Que tipo de reflexão o mundo deveria fazer neste momento, em que estamos a lutar contra uma pandemia?

MJP - Não sei se estamos a lutar contra uma pandemia. Estamos numa pandemia na qual gostaríamos de deixar de estar. Mas nunca pensamos — e falo em geral — que a primeira questão não é vacinar-nos para não termos mais vírus. Não. A primeira coisa a refletir é porque é que aconteceu a pandemia, porque é que a criámos. Não veio do céu, não foi Nosso Senhor que a mandou para nos castigar. E se fosse assim, haveria na mesma que perguntar: castigar porquê? Pelas asneiras que fizemos? É preciso pensar a razão porque estamos com os mais dramáticos problemas ambientais, com as piores perspetivas de futuro, e o que vamos fazer acerca disso.

Luciana - Não estamos a pensar no futuro?

MJP - Não só falta reflexão como nem sequer há informação. As pessoas não sabem os erros que cometem contra a sua saúde, contra a saúde futura dos seus filhos — e continuam a fazer filhos como se fosse muito engraçado, como se fosse divertido continuar a ter crianças que se deitam neste mundo sem saberem de todo o que se está a passar, como é que amanhã vão comer ou beber. Enquanto não houver uma reflexão coletiva sobre multinacionais como a Monsanto ou sobre a indústria animal, que é a primeira das causas da destruição planetária, não vamos chegar a lado nenhum. Ninguém toca na indústria animal, reparou? Claro, a economia é importante, ninguém quer ver o mundo a morrer de fome porque as coisas tiveram de ser mudadas. Mas, se não mudarmos, vamos ver na mesma milhões de pessoas a morrer de fome.

Luciana - Este negacionismo é útil aos populismos que proliferam no mundo de hoje?

MJP - Não tenho pretensão de ser analista política e sou bastante ignorante a esse nível, mas a ascensão da extrema-direita não é de hoje. Foi também um ato de negacionismo pensarmos que não chegaria onde chegou. Existe um bom senso mínimo para ver que se pegarmos em cem pessoas que votam na extrema-direita e lhes passarmos um filme a explicar o que se está a passar no mundo a nível do ambiente, económico, político, académico e humano, essas pessoas vão perceber e mudar de ideias na hora. Porque não é que as pessoas sejam más, as pessoas são educadas para serem más, são ignorantes. Trata-se de uma ignorância básica instalada a nível mundial, para tornar os povos manipuláveis.

Luciana - A ignorância é uma arma?

MJP - Uma arma terrível. Estamos nas mãos de um poder que não merece ter poder. E que não tem nada a ver com a política, não tenhamos ilusões: é um poder económico e financeiro — a política muda como eu mudo de camisa.
(...)"

Luciana Leiderfarb - jornalista nascida em Buenos Aires mas que se formou em Portugal no início dos anos 90. É jornalista premiada do Expresso.

terça-feira, dezembro 08, 2020

BMD ou WDL - UMA BIBLIOTECA MUNDIAL ON LINE

 FOI EM 2020 O LANÇAMENTO NA INTERNET DA WDL, A BIBLIOTECA MUNDIAL DIGITAL. UM PRESENTE DA UNESCO PARA A HUMANIDADE INTEIRA !!!
Já está disponível na Internet, quem quiser espreitar já basta clicar aqui (link).

Reúne mapas, textos, fotos, gravações e filmes de todos os tempos e explica em sete idiomas as jóias e relíquias culturais de todas as bibliotecas do planeta.
"Tem, sobretudo, caráter patrimonial" , antecipou em LA NACION Abdelaziz Abid, coordenador do projecto impulsionado pela UNESCO e outras 32 instituições. A BMD não oferecerá documentos correntes, a não ser "com valor de patrimônio, que permitirão apreciar e conhecer melhor as culturas do mundo em idiomas diferentes: árabe, chinês, inglês, francês, russo, espanhol e português. Mas há documentos em linha em mais de 50 idiomas".
Os tesouros incluem o Hyakumanto darani , um documento em japonês publicado no ano 764 e considerado o primeiro texto impresso da história; um relato dos aztecas que constitui a *primeira menção do Menino Jesus no Novo Mundo*; trabalhos de cientistas árabes desvelando o mistério da álgebra; ossos utilizados como oráculos e esteiras chinesas; a Bíblia de Gutenberg; antigas fotos latino-americanas da Biblioteca Nacional do Brasil e a célebre Bíblia do Diabo, do século XIII, da Biblioteca Nacional da Suécia.

O acesso é gratuito e os usuários podem ingressar directamente pela Web , sem necessidade de se registarem..
Permite ao internauta orientar a sua busca por épocas, zonas geográficas, tipo de documento e instituição. O sistema propõe as explicações em sete idiomas (árabe, chinês, inglês, francês, russo, espanhol e português), embora os originais existam na sua língua original.
Desse modo, é possível, por exemplo, estudar em detalhe o Evangelho de São Mateus traduzido em aleutiano pelo missionário russo Ioann Veniamiov, em 1840. Com um simples clique, podem-se passar as páginas de um livro, aproximar ou afastar os textos e movê-los em todos os sentidos. A excelente definição das imagens permite uma leitura cómoda e minuciosa.
Entre as jóias que contem neste momento a BMD está a Declaração de Independência dos Estados Unidos, assim como as Constituições de numerosos países; um texto japonês do século XVI considerado a primeira impressão da história; o diário de um estudioso veneziano que acompanhou Fernão de Magalhães na sua viagem ao redor do mundo; o original das "Fábulas" de La Fontaine , o primeiro livro publicado nas Filipinas em espanhol e tagalog, a *Bíblia de Gutemberg*, e umas pinturas rupestres africanas que datam de 8.000 A .C.
Os seus responsáveis afirmam que a BMD está sobretudo destinada a investigadores, professores e alunos.