sexta-feira, fevereiro 23, 2024

PARA A MEMÓRIA, QUE PREFERIA NÃO TER

 Fica aqui registado um triste episódio, que afinal vai ter um final feliz. No fim do Verão do ano passado, um cachorro é abandonado no quintal de amigos. Um quintal onde já vive uma cadela e, por temporadas, um cãozinho mais pequeno e simpático. Depois de uns dias já no quintal, os donos percebem que existe um novo habitante, mas muito esquivo e que se escondia na vegetação. Eu vou lá para ver o que se passa e confirmo a situação, e ofereço-me para dar uma ajuda. E nessa altura, verificando que o cão é problemático demais para a situação, fica decidido contactar a Câmara Municipal para proceder à recolha do cão. Da parte da Câmara Municipal a resposta habitual: fica registado e em lista de espera, até haver vaga no centro de recolha (vulgo canil). Ofereço-me para dar uma ajuda e tentar adaptar o bichinho para contacto humano e contacto com os outros cães, e na altura investiu-se numa coleira. Ainda saí com ele uma vez, à trela, e o passeio até correu bem, mas a coleira era um bocado grande e no final ele conseguiu dar um puxão e soltar-se. Para evitar ficar mais um cão de rua, como já estava a escurecer, durante a noite o quintal ficou aberto e... o cão regressou ao "seu" quintal. Mas depois não consegui dar continuidade ao meu trabalho voluntário, andei doente e com pouca energia, até que voltei ao modo mais activo. Mas com tantas coisas atrasadas para fazer, enfim, o tempo passou. Um dia passo por lá e fico a saber que o cão ainda não foi recolhido. E que nunca mudou o comportamento, sempre a esconder-se das pessoas e sem interagir com os outros cães. Há que insistir com a Câmara Municipal, mas respondem a dizer que depois de tantos meses, terá que ser a proprietária do quintal a apanhar o animal e a levá-lo a um veterinário, para saber se tem chip identificador. Hummm, não me pareceu nada bem esta resposta, e ofereci-me para escrever uma proposta de ofício para mandar para a Câmara. Mas não estando de todo em forma, a verdade é que demorei umas semanas a escrever o texto explicativo, mas finalmente enviei-o. Entretanto o bicho lá ia andando, sempre no mesmo registo. Mas eis que estes dias fui lá podar umas videiras e kiwis, e quando iá buscar um escadote reparo que o cão está num antigo galinheiro e penso que seria bom encurralá-lo, para avaliar o seu estado. E assim faço e percebo logo que o bicho não está bem. Lá o consigo prender novamente e devagar aproximar-me e perceber que tem o pescoço todo em ferida, consequência da fita que traz apertada demais junto do pescoço. O bicho foi sempre crescendo, como é normal, e a fita começou a apertar demais e a fazer ferida, e lá fui buscar uma tesoura e consegui retirar-lhe a fita, pobre coitado. Mas agora era preciso intervenção veterinária urgente, lembrei-me logo do Gabinete Veterinário Municipal. Antes disso perguntei se da parte da Câmara tinha havido alguma resposta ao e-mail que eu tinha proposto ser enviado, mas por puro azar não tinha ainda sido enviado, no meio de tantos afazeres diários e preocupações. Contacto então por telefone e peço a intervenção, mas a resposta é que não podem fazer nada, uma vez que não têm vaga no canil. Mas felizmente, e muito bem, contactam os voluntários de uma associação que nem meia hora depois já estavam prontos para uma acção de resgate. Fica já aqui uma palavra de reconhecimento para o trabalho meritório dos Patudos de Vagos. Aparece então uma voluntária, eu volto a apanhar o cão facilmente porque entretanto lhe coloquei a tal coleira que antes estava um pouco larga e deixei uma trela comprida pendurada, e quando ele estava escondido debaixo dos arbustos ficou a ponta da trela à mão de agarrar. A voluntária coloca o cão dentro do carro e quando tudo parecia bem encaminhado, o bicho assustado dá dois saltos e tranca o carro por dentro, e lá dentro as chaves da viatura, o telemóvel da voluntária, enfim. Só visto, depois de tantas situações de má sorte seguidas, ainda aparece mais este episódio, que só se resolveu chamando a intervenção de mecânico automóvel, que aliás ambos conhecíamos bem. O cão está agora a recuperar num veterinário local, até a ferida sarar, e ficará depois a aguardar um final feliz. Apesar da ferida o bicho estava forte e nunca mostrou instintos ferozes, pelo que recuperará depressa.

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