Aquela figura icónica do Monte Barata, o vizinho que passava por ali de vez em quando, mas que nós visitávamos bastas vezes, está internado no Lar de Idanha-a-Nova. E aproveitando uma das tardes da passagem por esta minha terra entrei lá nessa instituição e estive com dois amigos que ali estão. Mas que preferiam não estar. A mãe da minha amiga Lena, com quem estive a falar um pouco, e o inquebrável Ti Ferreira. Ficou todo contente de me ver, talvez mais de eu o ter visto. O Lar é muito bom, mas para ele é um local estranho. Agora não tem acesso livre ao espaço exterior, vive num primeiro andar e ouve muito mal. Anda a caminhar pelos corredores, com um cajado. O seu cajado de pastor, o que segura a sua vida toda, de criança a idoso. Como tem essa dificuldade auditiva, os outros moradores desta grande casa acham que ele tem dificuldades cognitivas, associadas à idade. Mas não tem, está igual a si próprio. Na minha cabeça nasceu um projecto: agarrar nele um dia e levá-lo a caminhar pelas ruas da vila. E sentá-lo à sombra da oliveira, ali ao lado da casa grande que baptizaram com o nome da São. E eu agarro nas minhas pernas e braços e faço aquilo que ele faria: podar a famosa oliveira dos contos. Ficam aqui registadas as suas palavras na década de 90, porque a minha memória não durará para sempre: "- Dá-lhe João Paulo, dá-lhe com força. Mais vale podar mal uma oliveira do que não a podar".
A propósito de idosos e dificuldades cognitivas, há aqui um episódio que envolve também a poda de oliveiras e que tem algo de estranho. E poderia muito bem entrar numa crónica. Nas traseiras de duas ou três vivendas existe um terreno com oliveiras junto aos muros das casas. As oliveiras foram sendo vagamente cuidadas, mas no ano passado um senhor perto dos 60 anos falou com a dona do terreno e ofereceu-se para podar as oliveiras na altura da colheita da azeitona, pois assim apanhava as azeitonas, fazia azeite e ainda oferecia desse azeite aos donos. Cuidava e ainda oferecia algum azeite. Os donos aceitaram e... o resultado foi terrível. Armado da sua motosserra só deixou o tronco principal, cortou e fez lenha para queimar no Inverno, e deixou o terreno cheio de ramagens, ainda alguns panais debaixo dos ramos, para a tal apanha da azeitona. Que nunca fez. Estragou as oliveiras e nunca mais lá foi. Uma vizinha ainda o indagou, se acaso não estaria a estragar as oliveiras, mas ele respondeu que não, que assim é que se fazia a poda da oliveira. De facto não, não é assim que se faz. É uma técnica, rolar uma oliveira, mas não se aplica quando uma oliveira está saudável e em produção. Ali na terra este senhor já é conhecido pelos problemas que arranja, mas nem todos sabem todas essas histórias. Esta é mais uma.
Esqueci-me de tirar fotos ao lado dos meus amigos lá no lar.
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