quinta-feira, maio 14, 2026

TEMPUS FUGIT - CRÓNICA LITERÁRIA 5

 

PERDESTE UM ANIMAL DE ESTIMAÇÃO? OU FOI O ANIMAL QUE TE PERDEU A TI?

 

TEMPUS FUGIT

No tempo das plantações há quem ande a plantar mato, onde antes houve floresta. Bela ocasião para levar um cão à liberdade de correr montes e vales. No tempo dos fogos a floresta foi derrotada, o ciclo natural foi interrompido, a paisagem agora é um reverdecer rasteiro com hastes queimadas. É nestas terras que a rafeirita Nadi se esgueira entre obstáculos, perseguindo cheiros, focinho para baixo, salta valas e moitas, agora vê-se, depois já não se vê.

Habitualmente esta cadela leva o seu tempo nas suas caçadas, e de vez em quando passa no ponto de partida. Mas há dias que demora um pouco mais. E há dias que demora um pouco demais. Esse demais, este termo que nos remete para alguma transgressão, é aplicado no conceito humano, uma vez que o tempo dessa demora em voltar ao ponto de partida é muito diferente para as pessoas. Para a Nadi é apenas o tempo de andar em liberdade, a usufruir dos cheiros e da sua capacidade em deslocar-se rapidamente. O drama do tempo que nos foge é uma invenção humana.

Temos sempre mais coisas para fazer, do que tempo para fazer essas coisas todas. É por isso que às vezes, os donos de cães como a Nadi, não têm tempo para esperar pelo regresso dos cães ao ponto de partida. É uma coisa que acontece frequentemente com os cães dos caçadores. Sejam eles cães dos próprios caçadores, sejam eles cães de matilhas treinadas para fazer caçadas, as famosas batidas ou montarias, em que os animais selvagens são assustados pelos batedores e sua matilha, em direcção às espingardas dos caçadores. Em direcção à bala, em direcção ao chumbo grosso. O tempo aí passa a correr, e o projéctil não tem tempo para pensar, ou passa ao lado ou fere. Se fere pode ser mortal. Até para a morte o tempo conta, pode ser imediatamente, rápida como o estrondo do tiro, ou pode ser a ferida que leva a uma morte lenta, um, dois dias, uma semana ou um par delas, um mês. A lentidão vai de um tempo que medimos em “breve” ou num “lá mais para diante”.

A Nadi foi passear uma bela manhã de fim de Inverno, e perdeu o seu dono, que não tinha tempo para esperar. O seu dono encontra-se envolvido em compromissos, a Nadi fica em liberdade nas encostas do vale do Mondego, para lá da pequena povoação termal das Caldas da Felgueira.

Noutros tempos (para nós foi há muito tempo, geologicamente foi há muito pouco tempo), nestas terras agora desertificadas, era outra espécie que deambulava entre montes e vales, que espreitava os homens que se adentravam nas florestas. Era o tempo do lobo, agora extinto. Dizem que a extinção é para sempre, mas esta é uma extinção local, os lobos ainda resistem às investidas e destruições de habitats, noutros locais. Talvez o tempo ainda venha a trazer os lobos de volta.

Nas Caldas da Felgueira, nem cão, nem cadela, nem lobo, foi uma gata que não deu tempo à dona para a levar de volta a casa. Foi para lá escondida debaixo do capot do carro, fugiu quando a tentaram agarrar, escondeu-se noutro carro. E noutro. Nunca mais apareceu. Onde terá ido parar? Nem o chip a fez aparecer. O que vale é que a gata tem tempo para viver mais vidas. São 7 no total.

A Nadi só tem uma. E um chip.

Sem comentários: