sexta-feira, fevereiro 20, 2026

A MINHA PARTICIPAÇÃO NA CONSULTA PÚBLICA - CENTRAL FOTOVOLTAICA DE AROUCA

 Não posso deixar de me pronunciar sobre mais um mega projecto de instalação de painéis solares fotovoltaicos em espaço natural. Tantos telhados, estacionamentos cobertos, entidades da administração pública, das forças armadas, tantos sítios para colocar ao serviço da produção de energia, que estão sempre em locais onde facilmente descarregam para a rede eléctrica, e anda o nosso governo a promover investimentos como este, para benefício de grandes empresas ou grandes grupos económicos.

Não se pode admitir a destruição de espaços rurais e florestais para instalar ainda mais painéis solares. Já conheço tantas destas mega estruturas, já dá para ver o enorme impacto negativo que tem na paisagem, na alteração do clima nas zonas circundantes, que talvez fosse bom, antes de avançar com mais licenciamentos, fazer uma moratória e fazer um estudo de impacto ambiental global. Este projecto isoladamente, ou junto com o que está já construído ali ao lado, pode parecer pouco grave para o ambiente ou para a paisagem, mas a nível nacional será importante perceber qual a área que vai deixar de ter floresta, e durante quantos anos seguidos, qual a área que vai deixar de ser rural e passar a ser uma área industrial, e durante quantos anos seguidos. Os impactes cumulativos devem passar a ser considerados. Qual a extensão de zonas com vedações metálicas, quantos km lineares de vedações estão a invadir os nossos terrenos agro-florestais, ou mesmo terras incultas onde encontram abrigo inúmeras espécies selvagens da flora e fauna?

E qual a necessidade de construir mais e mais linhas eléctricas, com os seus impactos negativos na avifauna e na paisagem, e na qualidade de vida das pessoas? É sabido que por baixo das linhas eléctricas a E-Redes tem destruído sistematicamente diversas zonas de regeneração da nossa floresta autóctone, barreiras naturais à propagação de incêndios, deixando depois troncos e ramos ali secos e espalhados, que vão depois dar força aos fogos em caso de ignição ou quando a propagação vem de qualquer lado.

Outra coisa que ninguém quer falar é a enorme vulnerabilidade deste tipo de instalações. Não havendo povoações por perto, e não tendo ninguém lá a trabalhar, facilmente podem vir a ser alvo de bombardeamentos ou qualquer tipo de sabotagem.

Este tipo de projectos não traz nenhuma vantagem de desenvolvimento das populações rurais. Nenhuma.

Não traz, como alguns dizem, uma vantagem de criar descontinuidade na paisagem para fazer barreira à propagação de fogos, ao interromper as manchas de eucaliptais e zonas de vegetação autóctone, porque isso obtém-se de muitas outras maneiras possíveis, e ninguém em Portugal está preocupado em fazer isso. Vai, isso sim, ser mais uma instalação industrial perdida no meio de zonas rurais e florestais, a que os bombeiros serão chamados para defender, quando os bombeiros actuais não são suficientes para defender as povoações em casos de incêndios de grandes dimensões, tal como todos vemos todos os anos.

Não é a produzir energia solar destruindo o nosso património natural que vamos ajudar a combater as alterações climáticas. Depois dos milhares e milhares, talvez milhões de árvores que foram arrancadas, partidas, tombadas, afectadas com os fenómenos extremos nos últimos anos, e este ano muito particularmente, pensar em aprovar projectos destes é uma imbecilidade que roça a perfeita estupidez.

Bem sei que este tipo de consultas públicas apenas serve para dizerem que as populações foram ouvidas, e que as opiniões técnicas ou de senso comum de nada valerão, contra os interesses instalados. Mas pelo menos fica aqui registado, e também publicado, para memória futura, que ainda há pessoas que lutam por um Portugal melhor e mais resiliente.

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