quinta-feira, maio 21, 2026

A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL TAMBÉM AFECTA OS CÃES

 A IA é danada!

E pode ser daninha. Esse é um dos temas do momento sobre esta ferramenta a que já muita gente deita a mão. Às vezes sem saber bem as implicações futuras deste presente.

Volvido o prazo para candidatar os trabalhos ao Concurso Literário João Grave, uma iniciativa dirigida aos munícipes de Vagos, encontrei-me casualmente na rua com o meu amigo Tiago, que me tinha cedido uma poesia sua, a letra de uma música que ele tinha composto e produzido com o seu nome artístico Juno the First (link aqui para uma das suas criações, onde fala sobre ele, no Soundcloud), para incluir no meu trabalho criativo.

A dada altura da conversa ele diz-me que na origem dessa letra, sobre as Nações Unidas, esteve um texto gerado pela Inteligência Artificial.

O QUÊ?

Então eu tinha incluído no meu texto uma coisa com recurso à IA? Fiquei surpreendido e ele disse-me que normalmente não usa a IA nos seus poemas. Que, aliás, são mais que muitos. Demasiados, até, para a minha sensibilidade artística. Mas que para ele fazem todo o sentido e o ajudam no seu dia-a-dia, isso é um facto. Mas este em particular, que incluí no meu trabalho como parte de uma narrativa, tinha tido origem na IA e ele depois tinha adaptado.

Nesse dia eu andava com a Pingas em Vagos, uma cadela espectacular que tem heterocromia. E o Tiago, para exemplificar como faz, logo ali na rua e com acesso ao seu telemóvel, pediu à sua IA para fazer um poema para uma cadela que se chama Pingas e que tem heterocromia.

O resultado foi este, que aqui deixo, porque é de facto impressionante.

A Pingas e os seus Mundos

Num olhar que o sol desenha,
Um segredo a cadela guarda:
Uma íris de terra castanha,
Outra de céu que a alma aguarda.

A Pingas, menina de quatro patas,
Com o olhar que é bússola e farol,
Une o azul das manhãs mais exatas
Ao tom doce e quente de um fim de sol.

Se num olho espelha o oceano profundo,
No outro retém o brilho do mel;
Traz no rosto a magia de todo o mundo,
Um pincel de luar num traço fiel.

Corre livre, entre sombras e luzes,
Com a sorte a brilhar em cada iris,
É a Pingas, que a vida seduzes,
Dona de um encanto que nunca perdes.

Se tivesse algum tempo agarrava nisto e mudava algumas coisas, e fazia umas belas quadras dedicadas a esta amiga que procura um lugar melhor para estar, pois está com uma família espectacular, como conheço poucas, mas neste momento têm pouco espaço e pouco tempo para ela. Como o meu tempo também é pouco mudo só dois ou três pormenores:


A PINGAS TEM OS SEUS MUNDOS

Num olhar que o sol desenha,
Um segredo a cadela guarda:
Uma íris de terra castanha,
Outra de céu que a alma guarda.

Ó Pingas, do alto das tuas quatro patas,
Tens um olhar que é bússola e farol,
Unes o azul das manhãs mais exactas
Ao tom doce e quente de um fim de sol.

Se num olho espelha o oceano profundo,
No outro retém o brilho doce do mel;
Traz no focinho a magia do mundo,
Uma pincelada de luar, raio fiel.

Corres livre, entre sombras e luzes,
Com a sorte a brilhar em cada iris,
És a Pingas, que a vida seduzes,
Dona de um encanto que nunca perdes.

terça-feira, maio 19, 2026

CONVÍVIO MONTE BARATA - AMIGOS QUERCUS À VOLTA DO LUÍS MONTEIRO

 

Decorreu no Monte Barata um convívio de velhos amigos, cujo ponto alto foi um almoço partilhado no sábado, dia 16 de Maio. Cheguei no próprio dia, tinha ido de comboio de Aveiro até Castelo Branco uns dias antes, para participar no festival da Ajidanha, fiquei a dormir em casa da Lena em Idanha-a-Nova e nesse dia precisei de boleia, que tentei combinar na véspera. A amiga Lídia do Ladoeiro arranjou uma boleia até essa conhecida terra da campina, depois pensei ir andando e pedir boleia a quem passasse, até Monforte da Beira. Mas o Tito afinal lá teve que ir a Idanha e deu-me logo boleia directa. Mas, como eu queria ainda ir comprar queijos à queijaria Falcão, para partilhar no almoço, fiquei por ali e o Tito levou a minha mochila e a velha tenda até ao Monte.

Ali fiquei na conversa, na queijaria, com a Júlia e com o Fernando, em despique de contar novidades, ainda vi o grande Sérgio (filho do casal e continuador da tradição ganadeira), até que já muito atrasado lá me despedi e comecei a descer a encosta, disposto a fazer o resto do caminho a pé. Mal tinha descido 20 metros, toca o telemóvel, era a Marta, que estava com o Artur, e iam para o Monte na carrinha da Quercus, queriam saber onde eu andava e se precisava de boleia. Claro! Num instante estava lá no meio de malta que já não via há mais de 30 anos, outros ainda tinha visto entretanto, aqui e ali. Já todos velhos como eu, mas tal como eu, ainda não tão velhos que prescindissem de participar neste convívio.

E revi o Armando Carvalho, que a propósito deste convívio o Samuel me tinha dito que lhe tinham contado que ele tinha estado muito mal. Eu não fazia ideia, até que lá fiz uns telefonemas e me contaram assim por alto. Mas a verdadeira história contou-me ele, que sobreviveu mesmo por um triz. Na verdade, apesar de muitos amigos em comum, como andei afastado da net mais de um mês, na altura em que ele foi hospitalizado, acabou por me passar ao lado essa notícia trágica, e que ficou a uns passos de ser fatídica.

Foi um momento para recordar com saudade o Luís Monteiro, que uniu todas aquelas pessoas há muitos anos atrás, e para isso contámos com a presença do Paulo Monteiro.

Voltando atrás no tempo, muito atrás, eu conheci o Luis Monteiro em Montesinho, bem lá no norte. Soubemos que a Quercus estava a organizar um Campo de Verão, e eu e o João Santos fomos de propósito desde Coimbra até lá. Fomos à boleia, mas depois a última parte do trajecto acabámos por apanhar um comboio, uma vez que as boleias escasseavam, na mesma medida em que escasseava o trânsito automóvel. Desse acampamento guardo excelentes memórias, do Armando e da Bebé, da Paula Leitão, da Cristina (de Aveiro) e do Luís Monteiro (os dois que nos deixaram na sequência de trágicos acidentes), do João Santos (como não!), de uma Joana Barbedo (do Porto), de uma jugoslava que já não me lembro do nome mas deve andar por aí perdido em papéis.

Neste meu regresso ao Monte Barata tirei fotografias e verifiquei como as coisas estavam depois da passagem da tempestade que derrubou azinheiras centenárias. Mas as que foram podadas em 2024/2025 estavam todas imponentes e belas. E inspiradoras.

Aqui partilho algumas dessas fotos.












segunda-feira, maio 18, 2026

CONTOS NA OLIVEIRA - FESTIVAL INTERNACIONAL DE CONTOS - 3º EDIÇÃO

 Consegui!!! À terceira vez que se realizou participei finalmente como espectador neste Festival, organizado anualmente pela Ajidanha. Foram 4 dias de apresentações/espectáculos. E começou de forma excelente, com uma apresentação de contos de José Saramago, pelos actores da própria Ajidanha.

Fiz algumas fotos, que partilho aqui, das diferentes noites em que consegui estar presente, 14, 15 e 16 de Maio. E fica o cartaz.



















sábado, maio 16, 2026

TI FERREIRA - MUDOU DE CASA AOS 93 ANOS

 Aquela figura icónica do Monte Barata, o vizinho que passava por ali de vez em quando, mas que nós visitávamos bastas vezes, está internado no Lar de Idanha-a-Nova. E aproveitando uma das tardes da passagem por esta minha terra entrei lá nessa instituição e estive com dois amigos que ali estão. Mas que preferiam não estar. A mãe da minha amiga Lena, com quem estive a falar um pouco, e o inquebrável Ti Ferreira. Ficou todo contente de me ver, talvez mais de eu o ter visto. O Lar é muito bom, mas para ele é um local estranho. Agora não tem acesso livre ao espaço exterior, vive num primeiro andar e ouve muito mal. Anda a caminhar pelos corredores, com um cajado. O seu cajado de pastor, o que segura a sua vida toda, de criança a idoso. Como tem essa dificuldade auditiva, os outros moradores desta grande casa acham que ele tem dificuldades cognitivas, associadas à idade. Mas não tem, está igual a si próprio. Na minha cabeça nasceu um projecto: agarrar nele um dia e levá-lo a caminhar pelas ruas da vila. E sentá-lo à sombra da oliveira, ali ao lado da casa grande que baptizaram com o nome da São. E eu agarro nas minhas pernas e braços e faço aquilo que ele faria: podar a famosa oliveira dos contos. Ficam aqui registadas as suas palavras na década de 90, porque a minha memória não durará para sempre: "- Dá-lhe João Paulo, dá-lhe com força. Mais vale podar mal uma oliveira do que não a podar".

A propósito de idosos e dificuldades cognitivas, há aqui um episódio que envolve também a poda de oliveiras e que tem algo de estranho. E poderia muito bem entrar numa crónica. Nas traseiras de duas ou três vivendas existe um terreno com oliveiras junto aos muros das casas. As oliveiras foram sendo vagamente cuidadas, mas no ano passado um senhor perto dos 60 anos falou com a dona do terreno e ofereceu-se para podar as oliveiras na altura da colheita da azeitona, pois assim apanhava as azeitonas, fazia azeite e ainda oferecia desse azeite aos donos. Cuidava e ainda oferecia algum azeite. Os donos aceitaram e... o resultado foi terrível. Armado da sua motosserra só deixou o tronco principal, cortou e fez lenha para queimar no Inverno, e deixou o terreno cheio de ramagens, ainda alguns panais debaixo dos ramos, para a tal apanha da azeitona. Que nunca fez. Estragou as oliveiras e nunca mais lá foi. Uma vizinha ainda o indagou, se acaso não estaria a estragar as oliveiras, mas ele respondeu que não, que assim é que se fazia a poda da oliveira. De facto não, não é assim que se faz. É uma técnica, rolar uma oliveira, mas não se aplica quando uma oliveira está saudável e em produção. Ali na terra este senhor já é conhecido pelos problemas que arranja, mas nem todos sabem todas essas histórias. Esta é mais uma.

Esqueci-me de tirar fotos ao lado dos meus amigos lá no lar.

quinta-feira, maio 14, 2026

TEMPUS FUGIT - CRÓNICA LITERÁRIA 5

 

PERDESTE UM ANIMAL DE ESTIMAÇÃO? OU FOI O ANIMAL QUE TE PERDEU A TI?

 

TEMPUS FUGIT

No tempo das plantações há quem ande a plantar mato, onde antes houve floresta. Bela ocasião para levar um cão à liberdade de correr montes e vales. No tempo dos fogos a floresta foi derrotada, o ciclo natural foi interrompido, a paisagem agora é um reverdecer rasteiro com hastes queimadas. É nestas terras que a rafeirita Nadi se esgueira entre obstáculos, perseguindo cheiros, focinho para baixo, salta valas e moitas, agora vê-se, depois já não se vê.

Habitualmente esta cadela leva o seu tempo nas suas caçadas, e de vez em quando passa no ponto de partida. Mas há dias que demora um pouco mais. E há dias que demora um pouco demais. Esse demais, este termo que nos remete para alguma transgressão, é aplicado no conceito humano, uma vez que o tempo dessa demora em voltar ao ponto de partida é muito diferente para as pessoas. Para a Nadi é apenas o tempo de andar em liberdade, a usufruir dos cheiros e da sua capacidade em deslocar-se rapidamente. O drama do tempo que nos foge é uma invenção humana.

Temos sempre mais coisas para fazer, do que tempo para fazer essas coisas todas. É por isso que às vezes, os donos de cães como a Nadi, não têm tempo para esperar pelo regresso dos cães ao ponto de partida. É uma coisa que acontece frequentemente com os cães dos caçadores. Sejam eles cães dos próprios caçadores, sejam eles cães de matilhas treinadas para fazer caçadas, as famosas batidas ou montarias, em que os animais selvagens são assustados pelos batedores e sua matilha, em direcção às espingardas dos caçadores. Em direcção à bala, em direcção ao chumbo grosso. O tempo aí passa a correr, e o projéctil não tem tempo para pensar, ou passa ao lado ou fere. Se fere pode ser mortal. Até para a morte o tempo conta, pode ser imediatamente, rápida como o estrondo do tiro, ou pode ser a ferida que leva a uma morte lenta, um, dois dias, uma semana ou um par delas, um mês. A lentidão vai de um tempo que medimos em “breve” ou num “lá mais para diante”.

A Nadi foi passear uma bela manhã de fim de Inverno, e perdeu o seu dono, que não tinha tempo para esperar. O seu dono encontra-se envolvido em compromissos, a Nadi fica em liberdade nas encostas do vale do Mondego, para lá da pequena povoação termal das Caldas da Felgueira.

Noutros tempos (para nós foi há muito tempo, geologicamente foi há muito pouco tempo), nestas terras agora desertificadas, era outra espécie que deambulava entre montes e vales, que espreitava os homens que se adentravam nas florestas. Era o tempo do lobo, agora extinto. Dizem que a extinção é para sempre, mas esta é uma extinção local, os lobos ainda resistem às investidas e destruições de habitats, noutros locais. Talvez o tempo ainda venha a trazer os lobos de volta.

Nas Caldas da Felgueira, nem cão, nem cadela, nem lobo, foi uma gata que não deu tempo à dona para a levar de volta a casa. Foi para lá escondida debaixo do capot do carro, fugiu quando a tentaram agarrar, escondeu-se noutro carro. E noutro. Nunca mais apareceu. Onde terá ido parar? Nem o chip a fez aparecer. O que vale é que a gata tem tempo para viver mais vidas. São 7 no total.

A Nadi só tem uma. E um chip.

quarta-feira, maio 13, 2026

ENCONTRO DE AUTORES - RASCUNHO - LAPA DO LOBO

 Ao inscrever-me na Oficina de Escrita Documental, e sem saber, acabei por participar na 1ª edição do Rascunho. Este formato de encontro de autores, idealizado e promovido pela Fundação Lapa do Lobo, tinha um programa para dois dias, aberto ao público e de entrada gratuita.


Na noite do dia 13, depois do jantar em grupo oferecido aos participantes da oficina, tivemos o espectáculo com a Soledad Felloza, uma uruguaia que reside na Galiza. Nas suas palavras "Galicia me ha adoptado pero nací a orillas de un rio que en lengua guaraní quiere decir de pájaros pintados, Uruguay. Las madreselvas aroman mi infancia y cobijan mis primeros amores. Las calles anchas de tierra esconden las primeras letras que garabateé y bajo el arenero de la plaza de la Bella Vista enterré un día mis miradas torcidas y me fuí por el mundo a contar mentiras mas verdaderas. Haciendo cuentas, me deben quedar por vivir uno 54 años, aunque preferiria que fueran 68 o 72. Así y todo, algunas cosas ya las tengo hechas. Algunas me llenan de orgullo, otras que si fuera por piel más clarita, me sonrojarían."

Foi muito divertido o espectáculo, a Soledad envolve-nos numa história que vai buscar às suas origens e que depois vem dar à Galiza e aos costumes peculiares dos galegos. Tem ritmo, tem muita piada, é quase uma "stand up comedy", um solo humorístico, para falar em português, ou galego.

No site da Fundação Lapa do Lobo podemos ler a notícia sobre o que aconteceu. Fiquei com pena de ter perdido a parte teatral, mas a minha agenda tinha um outro compromisso aqui no litoral.


terça-feira, maio 12, 2026

OFICINA DE ESCRITA DOCUMENTAL, COM MARLENE BARRETO

 Foi em Março que decorreu uma Oficina de Escrita Documental, com organização da Fundação Lapa do Lobo (Canas de Senhorim, concelho de Nelas) (link para o site da Fundação clicar aqui). Inscrevi-me porque apanhei a divulgação na plataforma Coffeepaste, e como ia para aquelas bandas naqueles dias, pensei: porque não?

Nesta oficina, em que conheci um pequeno grupo interessante de pessoas (da Fundação, a formadora e os outros participantes), a ideia era termos acesso a processos de transformação de histórias reais em material narrativo.

Foi no segundo destes dois dias em que decorreu a oficina que a Nadi se perdeu de mim (como noticiado aqui no Malfadado).

Foi muito enriquecedor participar nesta oficina. Para além da parte teórica fomos desafiados a passar à prática. De forma muito livre poderíamos escolher um tema, e sair para documentar a realidade e depois, num outro momento, construir uma narrativa à volta da recolha de imagens e/ou sons recolhidos.

Assim, depois de almoço, cada um escreveu a sua narrativa, depois foi o momento da partilha dos textos, e finalmente um espaço de criação colectiva a partir de imagens recolhidas pelos participantes, que proporcionou alguns momentos interessantes e que não imaginei quando pensei inscrever-me.

O meu tema foi escolhido pela Carolina, participante como eu e uma advogada de Viseu, que de forma muito espontânea e decidida sugeriu que o meu tema deveria ser o desaparecimento da Nadi. De facto, era uma boa oportunidade de voltar ao local, quem sabe a Nadi aparecesse, fotografar, filmar, documentar. E foi assim. Ficam aqui 3 fotos da extensa recolha que fiz, estas 3 documentam o que escrevi depois, mas fiz também videos, que não cabe partilhar.




Ficam também algumas fotos de momentos da criação colectiva:






segunda-feira, maio 11, 2026

AJIDANHA RECEBE NOVA DISTINÇÃO - TALVEZ A MAIS IMPORTANTE ATÉ AGORA

 Passou rápido o mês de Abril, não deu tempo para escrever aqui no Malfadado. Na Edição de 2026 dos Prémios do Jornal do Fundão, entregues na Gala anual do Jornal do Fundão, o Prémio Desenvolvimento Associativo e Cívico foi para esta pequena, mas enorme, associação de Idanha-a-Nova. Muito bom o discurso do presidente da direcção, ao agradecer o reconhecimento.

A partir da hora e 47 minutos de transmissão neste canal Youtube do Jornal do Fundão, temos a Ajidanha: